Vinho e Arquitetura na Serra Gaúcha

Visitei a Serra Gaúcha em Fevereiro. Embora a alta temporada na região seja durante o inverno – o tempo ideal para beber vinho tinto e tomar chocolate quente – o verão também é ótimo para se refrescar com os premiados espumantes locais, e para ver as vinhas com frutos, já que a época da colheita por lá acontece entre os meses de janeiro e março. 

Cooperativa Vinícola Aurora Fonte Foto: http://www.estilodevidavg.com/products/pinto-bandeira/

A serra gaúcha reúne o polo de vinhos mais antigo do país. Estabelecido nos anos 70, o polo conta com mais de 600 vinícolas e cooperativas.  Em Bento Gonçalves, as vinícolas estão distribuídas ao redor do município, pelo Vale dos Vinhedos, em Caminho das Pedras, Garibaldi e Pinto Bandeira.

Cave Geisse, em Pinto Bandeira. Fonte Foto: http://barricanews.com/tag/cave-geisse-pinto-bandeira-rs/

Ao chegar na região, me surpreendi ao avistar muitas fábricas na paisagem.  Isso ocorre porque, além do setor vinícola, Bento Gonçalves é também referência para outras indústrias – como a moveleira, por exemplo. Em termos de paisagem, eu destacaria a região de Pinto Bandeira como a mais bela, por ser mais preservada. Menção especial para a Cave Geisse, uma das vinícolas mais bonitas da viagem. Quando em Pinto Bandeira, vale visitar também a vinícola Don Giovanni (pelos excelentes espumantes) e o restaurante Champenoise Bistrô (pelo ambiente e gastronomia).

Fonte Foto: http://viajandobemebarato.com.br/2016/04/champenoise-bistro-alta-gastronomia-na-serra-gaucha.html

Champenoise Bistrô, em Pinto Bandeira

Arquitetura das Vinícolas

O sul do brasil recebeu muitos imigrantes de origem alemã e italiana, principalmente entre os séculos 19 e 20. Por isso, a arquitetura local possui uma forte influência européia. Muitas vinícolas que visitamos apresentam uma arquitetura com referências italianas, como as aberturas com arcos, o uso do tijolo aparente e o predomínio da tonalidade terracota nas fachadas. Muitas delas com heras sobre os muros, como é o caso da vinícola Casa Fontanari, em Caminho das Pedras. 

Na vinícola Alma única, no Vale dos Vinhedos, o acesso é emoldurado por duas fileiras de árvores, uma em cada lado da via.  Essa solução confere monumentalidade ao conjunto.  A simetria prevalece também na arquitetura do edifício, onde além de degustar os bons vinhos, é possível fazer um tour pelas caves.

Casa Fontanari Vinícola

Vinícola Alma Única Fonte Foto: https://media-cdn.tripadvisor.com/media/photo-s/0f/4f/68/49/almaunica.jpg

Vinícola Alma Única Fonte Foto: https://media-cdn.tripadvisor.com/media/photo-s/0f/4f/68/49/almaunica.jpg

As caves das vinícolas, onde são armazenadas as garrafas em processo de fermentação, geralmente encontram-se no subsolo. A falta de luminosidade e a proximidade com umidade do solo deixam o ambiente mais fresco, ideal para a maturação dos vinhos.

O espumante requer processo um pouco diferente do vinho, que inclui a etapa do ‘degorgement’, o que implica no congelamento do bico das garrafas para a remoção da levedura acumulada durante o processo de maturação. Antigamente, quando não era possível refrigerar com gelo industrial, cabia à arquitetura fazer o papel de congelador.

No caso da Peterlongo, uma das primeiras vinícolas da região, que fica no município de Garibaldi, foi construído um túnel subterrâneo que concentrava o vento frio e congelava as garrafas durante a noite gelada. Na madrugada seguinte, as tampas das garrafas eram prontamente retiradas.

Garrafas de espumante aramazenadas na cave da vinícola Peterlongo. Fonte Foto: http://www.gazetadopovo.com.br/bomgourmet/100-anos-em-boa-forma/

Na base das edificações – o soco do edifício - é comum o emprego de pedra, material mais resistente à ação da água e à umidade do solo. Na parte superior da fachada, comumente encontramos o uso da madeira. Alguns exemplos dessa solução surgem no tradicional restaurante Casa Vanni e na vinícola Casa Barcarola. 

Restaurante Casa Vanni

Vinícola Barcarola

Mas além destes exemplares mais tradicionais, também encontramos em Bento Gonçalves algumas vinícolas que trazem um casamento entre o antigo e o contemporâneo.  Esse é o caso da vinícola Milantino, que aproveitou parte da estrutura existente do local para as caves e criou um projeto novo, de formas puras, cobertura plana e concreto aparente para o espaço de degustação. O projeto promove o encontro de materiais rústicos, como o tijolo e a madeira de antigos barris, com materiais mais modernos, como o aço e vidro.

Fonte Foto: http://www.botequimdovinho.com.br/tradicao-italiana-que-se-reflete-no-paladar/

Gramado

Em Gramado, a influência europeia permanece também na arquitetura cívica – casas, hotéis, restaurantes, cinemas, igrejas. Observamos no centro da cidade um grande esforço para a preservação desta ambiência e tradição. Mesmo os novos empreendimentos respeitam uma tipologia histórica e a cultura da construção Enxaimel, ou Fachwerk. Essa técnica de origem alemã se caracteriza pelo encaixe de paredes montadas com hastes e tirantes de madeira, preenchidos por pedras ou tijolos.  Os telhados são geralmente inclinados, como os chalés, para não deixar acumular neve na cobertura. Aqui também é comum o uso da pedra na base dos edifícios, para proteger a madeira da umidade do solo. 

Prédios no centro de Gramado

Prédios no centro de Gramado

O rigor na preservação dos edifícios antigos e as regras impostas às novas construções contribuem para a harmonia da paisagem urbana.  Fica evidente um respeito com o passado, pois não há um grande contraste entre os prédios novos e os antigos.

Prédios novos mantêm o mesmo estilo da arquitetura tradicional da cidade

Você pode se perguntar: Como que a cidade consegue preservar as suas características ao longo do tempo? Essencialmente, isso é determinado pelo plano diretor, que estabelece diretrizes que orientam os novos empreendimentos da cidade. Segue aqui um trecho da lei que reflete essa preocupação com o patrimônio:

CARACTERÍSTICAS ARQUITETÔNICAS PREDOMINANTES Art. 96. O Município, em todas as zonas de uso, exercerá o direito de exigir que as construções tenham as “características arquitetônicas predominantes” da cidade, buscando cumprir as diretrizes previstas no presente plano. §1o O Município, através de suas secretarias competentes, com auxílio de historiadores, associação de profissionais da construção civil, conselho de desenvolvimento rural e outros afins, fará um estudo técnico para definir quais são as características que devem ser mantidas, devendo ser observados os aspectos relacionados à colonização da cidade (arquitetura, cultura, costumes, tradições, floreiras, ajardinamento, etc.), bem como as demais normas do presente plano em relação às construções.
— Lei 3296/2014 - Plano Diretor de Gramado

Essa preocupação com a imagem da cidade contribuí para a construção de uma identidade urbana, fundamental na idealização de um 'city branding'.

Gramado e a construção de uma identidade urbana

O termo inglês 'branding' se refere à gestão e construção de uma marca. 'City Branding' portanto, seria este conceito aplicado a uma cidade.  Alguns artifícios empregados para o desenvolvimento do 'city branding' incluem campanhas, slogans e logomarcas, além de um projeto de planejamento urbano.

Embora a construção e divulgação destes conceitos seja importante, essas campanhas geram maior resultado quando atreladas a uma transformação real e duradoura, como através do “place-making” - uma técnica que combina arquitetura, desenho e planejamento urbano. Como diz o nome, place-making busca transformar meros espaços em lugares, através da revitalização dos espaços livres públicos existentes, seja pela troca do mobiliário urbano, pela criação de ciclovias, ou mesmo pela redução da velocidade do transito.

Além de apostar na identidade associada ao estilo de suas construções, Gramado também traz vários espaços públicos que se adequam às necessidades do pedestre. Um destes exemplos é a rua coberta, repleta de mesinhas de cafés e restaurante. A cobertura permite uma circulação e socialização até em dias de chuva, sem contar que protege do vento em dias frios.

Rua Coberta em Gramado. Fonte Foto: http://ladica.com.br/passeios-em-gramado-tudo-o-que-voce-precisa-conhecer/

No centro da cidade, a velocidade de circulação dos automóveis é reduzida – 40km – o que torna mais pacífica a convivência entre veículos e pedestres.  Com a baixa velocidade, os motoristas ficam mais propensos a parar nas faixas de travessia elevadas. Essas faixas também são mais agradáveis ao passeio, já que reduzem a velocidade do carro e não obrigam o pedestre a descer um desnível quando atravessa a rua.

Outro fator fundamental para o sucesso do 'City Branding' é a cooperação entre o órgão gestor e a população.  O branding da cidade deve contribuir para a auto-estima de seus residentes, fazer com que eles sintam orgulho da sua cidade. Nem todas as cidades tem vocação para serem globais e cosmopolitas. A questão é encontrar e explorar o seu público alvo.  Explorar o potencial urbano para que este se torne um lugar onde as pessoas queiram ir visitar ou mesmo morar. 

O êxito de Gramado talvez se deva ao fato da cidade ter investido em diferentes focos de interesse – gastronômico, cultural, arquitetônico, turístico, natureza – o que garante a presença de turistas quase ao longo do ano todo. Mas uma das características que contribuem para o seu sucesso é exatamente o fato de não ser muito grande – 35 mil habitantes. Quanto maior a cidade, mais difícil pode ser designar uma única imagem, uma identidade concisa que abranja o todo.

Cachoeira no Parque do Caracol, em Canela. Fonte Foto: https://www.janelasabertas.com/2015/07/28/canela-passeando-no-parque-do-caracol/

Arquitetura de Museus

Se há uma tipologia que adquiriu destaque na mídia internacional nos últimos tempos, é a arquitetura dos museus.  Desde a construção do Guggenheim de Bilbao, no início dos anos 2000, ficou claro o potencial de atratividade turística dos museus. O efeito do Guggenheim sobre a cidade foi tão impactante, que ficou conhecido como o ‘efeito bilbao’.

Fonte: https://www.guggenheim.org/about-us

Bilbao é uma cidade no país Basco, no norte da Espanha, com uma população de aproximadamente 300 mil pessoas, e possuía uma até então economia majoritariamente industrial.  A vinda do museu Guggenheim, com a sua fabulosa estrutura projetada pelo arquiteto Frank Gehry, trouxe os olhares do mundo inteiro, proporcionando uma revitalização na escala da cidade e a vinda de milhares de turistas.  Devido ao sucesso deste empreendimento, muitos outros centros urbanos tem apostado na construção de museus para dar projeção à cidade.  Casos semelhantes desde então foram o novo Louvre em Lens, na França (projeto SANAA), o Centro Cultural da Galícia, em Santiago de Compostela (projeto Peter Eisenman), e até mesmo o recentemente inaugurado Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro (projeto Santiago Calatrava).

O nome de Gehry ficou fortemente atrelado à arquitetura de espetáculo desde sua contribuição à Bilbao. Além de projetar prédios como o Walt Disney Symphony Hall, de Los Angeles, Gehry foi também convidado para projetar a Fondation Louis Vuitton, inaugurada em 2014 em Paris.

Arte e Moda – Fondation Louis Vuitton e Fondazione Prada

A Fondation Louis Vuitton é um centro cultural criado pela marca de moda francesa homônima.  Essa iniciativa faz parte de um movimento que tem adquirido força nos últimos anos em que grandes marcas do mundo da moda inauguram centros culturais próprios.  O objetivo é que essas marcas aumentem a sua influência sobre a tendência em outras artes, além da moda. 

A Fondation Louis Vuitton está situada no 16º arrondissement, próximo ao parque Bois de Boulogne.  O edifício assume a forma de velas nas fachadas. No térreo, há um grande hall de entrada, um espaço voltado ao público que articula também um restaurante e a loja do museu.

Fondation Louis Vuitton, com intervenção do artista Daniel Buren na fachada.

A exposição se distribui por diferentes pisos, começando no subsolo e depois nos pavimentos superiores.  Os últimos andares do edifício são terraços, espaços semi-abertos que permitem a realização de eventos, além de oferecer vista para a paisagem do entorno.  Esses terraços na cobertura permitem também a visualização para o prédio em si. As diversas reentrâncias oferecem múltiplos pontos de vista para uma "auto-admiração" do edifício.  

Assim como no seu projeto para Bilbao, o edifício se confunde entre arquitetura e obra de arte. A construção não se detém apenas ao plano de fundo ou moldura para as obras – de tão belas, as formas do edifício sobressaem e competem com as obras em exposição pela atenção do visitante. Somos constantemente surpreendidos ao longo do percurso por salas que tomam formas inusitadas, aberturas laterais e zenitais, passarelas sinuosas, transição de materiais, variações entre dentre e fora.

Fondation Louis Vuitton, com intervenção colorida do artista Daniel Buren, na fachada.

Há muita discussão sobre o papel da arquitetura e a sua influência sobre a curadoria do museu. Se a arquitetura deve ou não interferir na apreciação das obras. Perguntamos ao curador do Guggenheim de Nova Iorque, no #askacuratorday pelo twitter, se a arquitetura deveria permanecer simples, de modo a não ofuscar a arte em exposição. Como podemos ver na resposta abaixo, o curador Troy Conrad Therrien afirmou que cabe a curadoria encontrar este equilíbrio entre a obra de arte e a arquitetura.

Assim como a FLV, já existem outros exemplos de marcas que inauguraram centros culturais próprios, como a ‘Fondation Cartier’, em Paris (projeto de Jean Nouvel), e a Fondazione Prada (projeto do OMA), inaugurada em Milão, em 2016. Recentemente, o projeto do OMA para a Prada foi destacado na exposição “Beazley Designs of the Year”, que segue até 19 de Fevereiro 2017 no Design Museum, em Londres. A decoração do café da Fondazione Prada, entretanto, levou a assinatura do cineasta Wes Anderson, que trouxe a ambiência dos seus filmes e sua característica paleta de cores para o centro. 

Fonte: archdaily.com.br Foto: Bas Princen

Tate Modern

Mas nem todos as cidades estão investindo na construção de novos museus.  Em 2016, foi inaugurada a extensão do Tate Modern, um dos maiores museus de arte moderna e contemporânea do mundo. A sua sede foi projetada pelo escritório suíço Herzog e De Meuron e reutiliza a estrutura de uma antiga fábrica na região de Southbank, em Londres. O projeto para a extensão manteve a mesma linguagem, preservando os tijolos marrons na fachada.

O museu desfruta de amplos espaços, o que permite a ocupação por obras de grande escala. Porém, a maior parte do acervo está distribuída por andares. A nova ala do museu assume uma forma piramidal e está organizada em 10 andares. Em cada pavimento, uma sala com uma temática diferente, reunindo trabalhos desde ‘performance art’ até ‘land art’.

 Fonte: archdaily.com.br Imagem: © Hayes Davidson and Herzog & de Meuron

O tema da arquitetura de museus já foi abordado anteriormente aqui no blog através de outros projetos. Quer saber mais do assunto? Você encontra os nossos textos reunidos aqui: Museus 

Sobre a arquitetura, a cidade e o cinema

Creio que os filmes são um produto e uma parte do meio urbano, quase como a música, e os arquitetos que se interessam por urbanismo deveriam estar informados sobre o tipo de música que se escuta, da arte que se faz e dos filmes que se rodam.
— Wim Wenders

imagem de divulgação da mostra arq. futuro. FONTE: http://arqfuturo.com.br/frontend/home/post/2093

Nestas próximas semanas, a cidade do Rio de Janeiro está cinematográfica.  Além do Festival do Rio, que acontecerá entre os dias 06 e 16 de Outubro, começou ontem a mostra 'Arq.Futuro – A Cidade e o Cinema', que traz uma seleção de filmes sobre arquitetura e cidades.  A inauguração da mostra contou com a exibição do filme “A competição”, um documentário que acompanhou os escritórios de Jean Nouvel, Zaha Hadid, Dominique Perrault e Frank Gehry no desenvolvimento de uma proposta para o concurso de um museu em Andorra (trailer do filme abaixo).

A mostra, que segue até o dia 05 de Outubro, conta ainda com filmes clássicos sobre a arquitetura no cinema, como “Playtime”, de Jacques Tati, e documentários como o “The Human Scale”, que já foi assunto no blog no texto: A escala humana de Melbourne

Playtime, Jacques tati

A relação entre arquitetura e cinema

O arquiteto, à semelhança de um realizador de cinema, deve saber captar a luz, o movimento, produzindo por meio de seus projetos uma coreografia de ritmos, gestos, imagens, tomadas (planos) e fantasia. Saber realizar, enfim, a síntese entre o universo real e o virtual...
— Jean Nouvel

A arquitetura e o cinema se aproximam em muitos sentidos.  São formas de arte distintas, que se expressam através de mídias diferentes, porém utilizando recursos e processos semelhantes. A arquitetura articula o espaço através da situação, da escala e luminosidade, articula o tempo por meio do ritmo do percurso - o alentamento, as paradas, a reversão – todos efeitos de equivalente importância para a expressão cinemática.  Essencialmente, ambas as artes trabalham com imagens e com a sucessão das mesmas, o que as diferencia é que no cinema estas se dão em um plano bidimensional, dentro do qual o observador não pode penetrar.  No cinema, o espectador é um ‘voyeur’, enquanto na arquitetura é o próprio visitante quem determina o seu percurso.  O cinema lida com a visão e a percepção mental, enquanto a arquitetura age sobre o físico. Com isso, o cinema desfruta de uma maior liberdade criativa.  O cinema é capaz de criar ilusões, mundos fictícios enquanto a arquitetura se detém na realidade.

Realidades fictícias. Foto do filme “A origem”, dirigido por Christopher Nolan. https://archialternative.files.wordpress.com/2010/07/blog-inception-3.jpg

No cinema, assim como na literatura, o espectador pode assumir um papel ativo na criação deste mundo irreal.  O espectador assume o papel de arquiteto.  O cinema estabelece a moldura, e cabe ao espectador imaginar o que acontece para além dos limites da tela.  Incitada por fragmentos de cenas urbanas, a cidade emerge aqui como uma extensão psicológica, mapeada de forma intuitiva, afastando-se da chamada ‘realidade concreta’. 

A arquitetura, em sua essência, é o abrigo. Sua função primordial é oferecer um refúgio das intempéries, é elemento condicionante para a existência humana.  Ela absorve e, consequentemente, reflete a cultura local, tornando-se um objecto vital para o estudo de uma época. A arquitetura nada mais é do que a grande vencedora do esquecimento humano, pois nela estão impressas as nossas memórias, a nossa história.  Podemos dizer o mesmo para o cinema?  Não seriam os objetivos e propósitos de ambas as artes essencialmente os mesmos? 

Projetar é fazer cinema

Podemos considerar, de certo modo, que uma arte complementa a outra.  O cinema preenche as lacunas da arquitetura, e vice-versa.  Seria o cinema a mídia encontrada pela arquitetura para lançar vôos mais altos, obter a sua tão desejada liberdade criativa, cerceada pelas leis do mundo real?  Ou, por outro lado, seria a arquitetura o ponto em que os desejos do cinema deixam de ser um devaneio e tornam-se uma realidade concreta?  Estaria a compreensão de uma disciplina necessariamente atrelada a uma leitura da outra? Se projetar é adentrar, percorrer espaços, prever surpresas e observar diferentes ângulos, fazer cinema não seria a mesma coisa?

Não é à toa que arquitetos buscam inspirações no cinema e diretores de cinema na arquitetura.  A arquitetura e o cinema lidam com as mesmas questões e os mesmos recursos, porém em contextos e com propósitos diversos. Podemos considerar o cinema não como um espelho, mas sim como um prisma para a arquitetura - através dele não obtemos um reflexo, mas sim uma nova maneira de observar e pensar a arquitetura.

O cinema como um prisma através do qual adquirir uma nova percepção da arquitetura. Na foto, cena do filme Alice nas Cidades, de Wim Wenders. 
Fonte: http://wimwendersstiftung.de/media/ALICE05CWWS.jpg