Japan House | Kengo Kuma + FGMF

A Japan House, um projeto do arquiteto japonês Kengo Kuma em parceria com o escritório brasileiro FGMF Arquitetos, foi aberta ao público em maio deste ano. Uma iniciativa do governo japonês para apresentar a face contemporânea do seu país, com um espaço que reúne arte, cultura e tecnologia.

O projeto não se tratava de uma nova construção, mas de uma reforma em um prédio existente.  O local possuía anteriormente o programa de uma agencia bancária, e o projeto previu modificações para adaptar o espaço ao novo uso.  Além de rasgos na laje para a circulação vertical, foram realizados reforços na estrutura para comportar o aumento do público.

Vista da Japan House a partir da Avenida Paulista

O centro cultural situa-se na Avenida Paulista.  Numa via rodeada por arranha céus, o prédio de 3 andares parece pequenino.  A Japan House, porém, se impõe através de sua fachada espetacular, revestida por réguas de madeira hinoki, um pinheiro típico do Japão.  As tábuas formam um grande portal, emoldurando a entrada do edifício. 

Por trás da estrutura de madeira, avistamos uma praça de acesso - um espaço agregador e de transição - e um segundo painel de cobogós de concreto, na fachada lateral do edifício.  Ambos os revestimentos – as ripas de madeira e o cobogó - possuem uma função de brise, servindo de anteparo para a luz do sol.

Fachada de tábuas de madeira

Ao adentrar, nos encontramos direto em uma sala de exposição.  Quando visitei, estava em cartaz a exposição "Espuma", de Kohei Nawa.  Ainda no térreo, há uma lojinha com produtos japoneses, os banheiros, um café e uma biblioteca.  No fundo, um pequeno jardim com um piso contínuo que cria uma topografia artificial.  Esse mini-jardim oferece um espaço de descanso e contemplação, rodeado pelos edifícios do entorno. 

Exposição espuma de Kohei Nawa

Loja e Café

Mini-jardim interno

Do lado da recepção, o elevador e a escada nos conduzem aos demais pavimentos.  As caixas do elevador são revestidas por vidro, deixando a sua estrutura metálica aparente.  Isso permite também percorrer verticalmente o edifício sem perder o contato visual com os espaços.

Escada aberta e caixa de elevador encerrada por vidro permitem a propagação da luz natural.

Jardim de bambu no último andar

No segundo andar, encontramos salas multiuso para a realização de eventos e seminários e, no terceiro andar, mais uma sala de exposição e um restaurante típico.  As amplas janelas do restaurante revelam um segundo jardim, dessa vez um jardim linear totalmente encerrado por bambus.  As plantas abafam o ruído da avenida paulista e trazem um clima de refúgio para dentro do ambiente.

O projeto é composto por uma variação de camadas opacas e transparentes, que se contrapõem constantemente. Em muitas ocasiões, é possível estar em um espaço e avistar os adjacentes. Da sala da exposição no último andar, por exemplo, é possível avistar o restaurante, a cozinha (aberta para o salão) e o jardim. Isso contribui para a dissipação da luz natural para o interior do edifício.  O vidro, por vezes, é revestido por uma chapa metálica expandida mergulhada em papel - combinando o material contemporâneo com a tradição artesanal japonesa. Esse material é empregado na divisória entre a loja e a sala de exposições no térreo, no teto da loja, na caixa de elevador e na divisória entre o restaurante e a sala de exposição.

A laje de concreto é aparente e todas as instalações são mantidas a vista.  A iluminação do espaço de exposição é em trilho, o que permite a flexibilidade para mudar de lugar para cada nova exposição.

IMS-SP | Andrade Morettin Arquitetos

Foi inaugurada em setembro 2017 a nova sede do Instituto Moreira Salles, em São Paulo. O projeto foi produto de um concurso realizado em 2011, e sua construção durou quase 4 anos, com início em 2014.  Assinado pelo escritório Andrade Morettin Arquitetos, o novo centro cultural é situado na Avenida Paulista (um local que já foi assunto aqui no blog), um dos principais pontos turísticos e culturais da capital paulista.

O instituto visto da avenida

Edifício visto da Avenida Paulista.

Pele de vidro translúcido revela interior do edifício.

Ao se aproximar do edifício avistamos um prisma translúcido. O material empregado na fachada é um vidro tipo U-Glass – um vidro com seção em U, autoportante, que permite a passagem de luz, mas preserva uma certa opacidade. Na apresentação do projeto, os arquitetos destacaram a “Maison de Verre”, projeto de Pierre Chareau e Bernard Bijvoet, como uma de suas principais referências devido a essa mesma condição de transparência e opacidade, dada no caso pelo tijolo de vidro (fotos abaixo).

'Maison de verre', de Pierre Chareau e Bernard Bijvoet. FONTE: archdaily.com  foto: Mark Lyon

vista do interior da 'Maison de Verre'. fonte: https://www.yellowtrace.com.au/maison-de-verre-paris-pierre-chareau-bernard-bijvoet/

A transparência difusa do vidro permite a visualização de um segundo volume por trás, de cor avermelhada, desprendido do invólucro do edifício.  Trata-se dos espaços das galerias de exposição.  Ou seja, da rua é possível avistar o contorno dos espaços expositivos.  O contraste entre a pele de vidro e o volume das galerias é enfatizado não apenas pela cor e pelo afastamento da fachada, mas também por sua forma não ortogonal.

O edifício é suspenso do nível térreo.  No centro desse espaço vazio, uma escada rolante nos convida a subir e adentrar o centro cultural.  Ao fundo do terreno, encontramos um restaurante com uma magnifica parede de jardim vertical - quase um “pocket-garden” na avenida paulista.

Escada rolante de acesso ao prédio e restaurante ao fundo.

Por dentro do edifício

Ao subir o primeiro lance de escadas rolantes, somos rodeados por altas estantes de livros e salas de estudo – essa é a biblioteca de fotografia, que possui capacidade para abrigar até 30 mil itens.

Salas de estudo da biblioteca, vistas a partir da escada rolante.

Subindo mais um lance da escada rolante (dessa vez a escada vence um pé direito duplo), chegamos ao pavimento intermediário, entre a biblioteca e as exposições. Um pavimento que reúne características de praça pelo piso de pedra portuguesa, pelos bancos para o descanso e por trazer usos como o café, a livraria, banheiros e chapelaria.  É nesse local que também encontramos a varanda, já avistada da rua.  Dela, podemos ver uma bela vista do centro de São Paulo.

chegada da escada rolante e Varanda com vista para o centro de são paulo

Chapelaria, livraria e café, ao fundo.

Mobiliário para descanso, próximo ao café.

Há também uma varanda semelhante na fachada dos fundos. O guarda corpo é todo de vidro transparente, com um corrimão metálico na parte interna.  Uma solução bastante limpa e elegante, que é repetida também nas escadas do projeto.

Detalhe do guarda corpo de vidro e corrimão metálico.

Aos que seguem para as salas de exposição nos pavimentos superiores, existem duas opções de circulação: o elevador, numa caixa de concreto aparente, ou uma escada aberta, com tábuas de madeira no piso. Em contraponto à estrutura cinza (metálica e de concreto), o piso de madeira traz um calor aos espaços de circulação e exposição.

Elevador e porta de acesso à sala expositiva.

O instituto conta com três salas de exposição independentes.  Apesar das portas de vidro, que permitem a visualização da exposição antes de adentrar a sala, esses espaços herméticos permitem o controle total da luz e da temperatura para o melhor aproveitamento por parte da curadoria.  O sistema de iluminação em trilhos oferece versatilidade e flexibilidade ao espaço expositivo.

Sala de exposição

Por outro lado, o espaço de circulação é predominantemente iluminado pela luz natural – tanto por aquela que entra pela fachada, quando pela claraboia.  O recuo do volume das salas de exposição deixa um intervalo na cobertura, uma fresta de alguns metros que é encerrada por uma pele de vidro. Esse afastamento permite a visualização das diferentes camadas que compõem o edifício; o envelope, responsável pela entrada de luz e controle térmico; a estrutura metálica, responsável pela sustentação do edifício; e o espaço expositivo, o coração do edifício. 

Intervalo entre fachada e limite das salas de exposição, com claraboia na cobertura.

Camadas do edifício.

Vinho e Arquitetura na Serra Gaúcha

Visitei a Serra Gaúcha em Fevereiro. Embora a alta temporada na região seja durante o inverno – o tempo ideal para beber vinho tinto e tomar chocolate quente – o verão também é ótimo para se refrescar com os premiados espumantes locais, e para ver as vinhas com frutos, já que a época da colheita por lá acontece entre os meses de janeiro e março. 

Cooperativa Vinícola Aurora Fonte Foto: http://www.estilodevidavg.com/products/pinto-bandeira/

A serra gaúcha reúne o polo de vinhos mais antigo do país. Estabelecido nos anos 70, o polo conta com mais de 600 vinícolas e cooperativas.  Em Bento Gonçalves, as vinícolas estão distribuídas ao redor do município, pelo Vale dos Vinhedos, em Caminho das Pedras, Garibaldi e Pinto Bandeira.

Cave Geisse, em Pinto Bandeira. Fonte Foto: http://barricanews.com/tag/cave-geisse-pinto-bandeira-rs/

Ao chegar na região, me surpreendi ao avistar muitas fábricas na paisagem.  Isso ocorre porque, além do setor vinícola, Bento Gonçalves é também referência para outras indústrias – como a moveleira, por exemplo. Em termos de paisagem, eu destacaria a região de Pinto Bandeira como a mais bela, por ser mais preservada. Menção especial para a Cave Geisse, uma das vinícolas mais bonitas da viagem. Quando em Pinto Bandeira, vale visitar também a vinícola Don Giovanni (pelos excelentes espumantes) e o restaurante Champenoise Bistrô (pelo ambiente e gastronomia).

Fonte Foto: http://viajandobemebarato.com.br/2016/04/champenoise-bistro-alta-gastronomia-na-serra-gaucha.html

Champenoise Bistrô, em Pinto Bandeira

Arquitetura das Vinícolas

O sul do brasil recebeu muitos imigrantes de origem alemã e italiana, principalmente entre os séculos 19 e 20. Por isso, a arquitetura local possui uma forte influência européia. Muitas vinícolas que visitamos apresentam uma arquitetura com referências italianas, como as aberturas com arcos, o uso do tijolo aparente e o predomínio da tonalidade terracota nas fachadas. Muitas delas com heras sobre os muros, como é o caso da vinícola Casa Fontanari, em Caminho das Pedras. 

Na vinícola Alma única, no Vale dos Vinhedos, o acesso é emoldurado por duas fileiras de árvores, uma em cada lado da via.  Essa solução confere monumentalidade ao conjunto.  A simetria prevalece também na arquitetura do edifício, onde além de degustar os bons vinhos, é possível fazer um tour pelas caves.

Casa Fontanari Vinícola

Vinícola Alma Única Fonte Foto: https://media-cdn.tripadvisor.com/media/photo-s/0f/4f/68/49/almaunica.jpg

Vinícola Alma Única Fonte Foto: https://media-cdn.tripadvisor.com/media/photo-s/0f/4f/68/49/almaunica.jpg

As caves das vinícolas, onde são armazenadas as garrafas em processo de fermentação, geralmente encontram-se no subsolo. A falta de luminosidade e a proximidade com umidade do solo deixam o ambiente mais fresco, ideal para a maturação dos vinhos.

O espumante requer processo um pouco diferente do vinho, que inclui a etapa do ‘degorgement’, o que implica no congelamento do bico das garrafas para a remoção da levedura acumulada durante o processo de maturação. Antigamente, quando não era possível refrigerar com gelo industrial, cabia à arquitetura fazer o papel de congelador.

No caso da Peterlongo, uma das primeiras vinícolas da região, que fica no município de Garibaldi, foi construído um túnel subterrâneo que concentrava o vento frio e congelava as garrafas durante a noite gelada. Na madrugada seguinte, as tampas das garrafas eram prontamente retiradas.

Garrafas de espumante aramazenadas na cave da vinícola Peterlongo. Fonte Foto: http://www.gazetadopovo.com.br/bomgourmet/100-anos-em-boa-forma/

Na base das edificações – o soco do edifício - é comum o emprego de pedra, material mais resistente à ação da água e à umidade do solo. Na parte superior da fachada, comumente encontramos o uso da madeira. Alguns exemplos dessa solução surgem no tradicional restaurante Casa Vanni e na vinícola Casa Barcarola. 

Restaurante Casa Vanni

Vinícola Barcarola

Mas além destes exemplares mais tradicionais, também encontramos em Bento Gonçalves algumas vinícolas que trazem um casamento entre o antigo e o contemporâneo.  Esse é o caso da vinícola Milantino, que aproveitou parte da estrutura existente do local para as caves e criou um projeto novo, de formas puras, cobertura plana e concreto aparente para o espaço de degustação. O projeto promove o encontro de materiais rústicos, como o tijolo e a madeira de antigos barris, com materiais mais modernos, como o aço e vidro.

Fonte Foto: http://www.botequimdovinho.com.br/tradicao-italiana-que-se-reflete-no-paladar/

Gramado

Em Gramado, a influência europeia permanece também na arquitetura cívica – casas, hotéis, restaurantes, cinemas, igrejas. Observamos no centro da cidade um grande esforço para a preservação desta ambiência e tradição. Mesmo os novos empreendimentos respeitam uma tipologia histórica e a cultura da construção Enxaimel, ou Fachwerk. Essa técnica de origem alemã se caracteriza pelo encaixe de paredes montadas com hastes e tirantes de madeira, preenchidos por pedras ou tijolos.  Os telhados são geralmente inclinados, como os chalés, para não deixar acumular neve na cobertura. Aqui também é comum o uso da pedra na base dos edifícios, para proteger a madeira da umidade do solo. 

Prédios no centro de Gramado

Prédios no centro de Gramado

O rigor na preservação dos edifícios antigos e as regras impostas às novas construções contribuem para a harmonia da paisagem urbana.  Fica evidente um respeito com o passado, pois não há um grande contraste entre os prédios novos e os antigos.

Prédios novos mantêm o mesmo estilo da arquitetura tradicional da cidade

Você pode se perguntar: Como que a cidade consegue preservar as suas características ao longo do tempo? Essencialmente, isso é determinado pelo plano diretor, que estabelece diretrizes que orientam os novos empreendimentos da cidade. Segue aqui um trecho da lei que reflete essa preocupação com o patrimônio:

CARACTERÍSTICAS ARQUITETÔNICAS PREDOMINANTES Art. 96. O Município, em todas as zonas de uso, exercerá o direito de exigir que as construções tenham as “características arquitetônicas predominantes” da cidade, buscando cumprir as diretrizes previstas no presente plano. §1o O Município, através de suas secretarias competentes, com auxílio de historiadores, associação de profissionais da construção civil, conselho de desenvolvimento rural e outros afins, fará um estudo técnico para definir quais são as características que devem ser mantidas, devendo ser observados os aspectos relacionados à colonização da cidade (arquitetura, cultura, costumes, tradições, floreiras, ajardinamento, etc.), bem como as demais normas do presente plano em relação às construções.
— Lei 3296/2014 - Plano Diretor de Gramado

Essa preocupação com a imagem da cidade contribuí para a construção de uma identidade urbana, fundamental na idealização de um 'city branding'.

Gramado e a construção de uma identidade urbana

O termo inglês 'branding' se refere à gestão e construção de uma marca. 'City Branding' portanto, seria este conceito aplicado a uma cidade.  Alguns artifícios empregados para o desenvolvimento do 'city branding' incluem campanhas, slogans e logomarcas, além de um projeto de planejamento urbano.

Embora a construção e divulgação destes conceitos seja importante, essas campanhas geram maior resultado quando atreladas a uma transformação real e duradoura, como através do “place-making” - uma técnica que combina arquitetura, desenho e planejamento urbano. Como diz o nome, place-making busca transformar meros espaços em lugares, através da revitalização dos espaços livres públicos existentes, seja pela troca do mobiliário urbano, pela criação de ciclovias, ou mesmo pela redução da velocidade do transito.

Além de apostar na identidade associada ao estilo de suas construções, Gramado também traz vários espaços públicos que se adequam às necessidades do pedestre. Um destes exemplos é a rua coberta, repleta de mesinhas de cafés e restaurante. A cobertura permite uma circulação e socialização até em dias de chuva, sem contar que protege do vento em dias frios.

Rua Coberta em Gramado. Fonte Foto: http://ladica.com.br/passeios-em-gramado-tudo-o-que-voce-precisa-conhecer/

No centro da cidade, a velocidade de circulação dos automóveis é reduzida – 40km – o que torna mais pacífica a convivência entre veículos e pedestres.  Com a baixa velocidade, os motoristas ficam mais propensos a parar nas faixas de travessia elevadas. Essas faixas também são mais agradáveis ao passeio, já que reduzem a velocidade do carro e não obrigam o pedestre a descer um desnível quando atravessa a rua.

Outro fator fundamental para o sucesso do 'City Branding' é a cooperação entre o órgão gestor e a população.  O branding da cidade deve contribuir para a auto-estima de seus residentes, fazer com que eles sintam orgulho da sua cidade. Nem todas as cidades tem vocação para serem globais e cosmopolitas. A questão é encontrar e explorar o seu público alvo.  Explorar o potencial urbano para que este se torne um lugar onde as pessoas queiram ir visitar ou mesmo morar. 

O êxito de Gramado talvez se deva ao fato da cidade ter investido em diferentes focos de interesse – gastronômico, cultural, arquitetônico, turístico, natureza – o que garante a presença de turistas quase ao longo do ano todo. Mas uma das características que contribuem para o seu sucesso é exatamente o fato de não ser muito grande – 35 mil habitantes. Quanto maior a cidade, mais difícil pode ser designar uma única imagem, uma identidade concisa que abranja o todo.

Cachoeira no Parque do Caracol, em Canela. Fonte Foto: https://www.janelasabertas.com/2015/07/28/canela-passeando-no-parque-do-caracol/