Arte rupestre na Serra da Capivara

Visitei a Serra da Capivara em setembro 2016 e posso dizer que foi uma viagem inesquecível. 

Sítio arqueológico da Pedra Furada

O Parque Nacional da Serra da Capivara, reconhecido como Patrimônio Cultural da Unesco em 1991, reúne a maior quantidade de pinturas rupestres no mundo.  A unidade de conservação é situada no estado do Piauí, cerca de 530 km da capital do estado, Teresina. Foi fundado em 1979, após as descobertas de desenhos nas cavernas e vestígios de ocupação humana que remontam a até 50 mil anos atrás. 

Pintura símbolo do parque

O impacto dessas descobertas

Essas descobertas despertaram o interesse mundial e atraíram a Missão Arqueológica Franco-Brasileira, da qual fazia parte Niède Guidon, presidente da Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM), entidade responsável pela gestão do parque, junto com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO).

Museu do homem americano traz explicações sobre descobertas e pesquisas locais.

As primeiras amostras de carvão encontradas no sítio do Boqueirão da Pedra Furada, consideradas vestígios de fogueiras que comprovam a presença humana, apresentaram datações de 25.000 anos. Nos anos 1980, em escavações mais profundas, foram encontrados vestígios de até 58.000 anos atrás. A concentração dessas amostras sugere que foram fogueiras feitas por homo sapiens, e não o resultado de fogos naturais ou raios. 

Se de fato for comprovada a presença do ser humano há mais de 50mil anos atrás, essa descoberta contraria a teoria da ocupação das américas através do estreito de Bering.  Os pesquisadores da FUMDHAM defendem que a ocupação ocorreu através do Oceano Atlântico, originária do continente africano. Segundo eles, durante a era glacial - cerca de 130 mil anos atrás - o nível do mar encontrava-se 140 metros abaixo do nível atual, a distância entre os continentes americano e africano era menor e existiam diversas ilhas entre os dois, o que facilitou a travessia de grupos.

Pinturas Rupestres

Das pinturas rupestres, foram registradas datações de até 30.000 anos. Muitas já foram apagadas ou perderam nitidez, em função das intempéries ou do descolamento das pedras. Para a análise dos arqueólogos, as pinturas são classificadas em 3 temáticas:

1) Pinturas narrativas, com cenas temáticas e de porte maior. A caça é um dos temas principais. Outros temas também são a sexualidade e realização de rituais que envolvem dança.

"O Beijo"

2) Pinturas antropomórficas e zoomórficas, mostrando homens e animais juntos, coexistindo.

3) Pinturas com figuras não reconhecíveis, compartilhando espaço com figuras reconhecíveis.

A predominância do tem vermelho está associada ao ocre (óxido de ferro) utilizado como matéria prima.

Acredita-se que os murais foram feitos por pessoas de diferentes gerações, já que é possível identificar desenhos em diferentes camadas de rochas. Considera-se também que a maioria dos desenhos foi feita por crianças e mulheres, já que estes ficavam nas cavernas enquanto os homens saíam para caçar. 

Camadas de rochas diferentes sobrepostas

Como chegar no Parque

Estrada de terra, a caminho de São Raimundo Nonato

É curioso que um tesouro dessa proporção seja pouco conhecido pela própria população brasileira.  Um dos fatores que contribuem para o seu desconhecimento é a sua localização remota. Hoje é possível chegar à São Raimundo Nonato - a cidade mais próxima do parque - de avião, porém os únicos vôos diretos são a partir de Teresina e não são diários.

Caso você não voe diretamente a São Raimundo, os dois maiores aeroportos ficam nas cidades de Petrolina e Teresina. Optamos por ir via Petrolina, já que é mais próxima para ir de carro (300km). Tivemos a oportunidade de conhecer um pouco a cidade: fomos jantar no maravilhoso flor de mandacaru  – tão bom que fomos 2 vezes(!!) – e ainda conhecemos o “velho chico”. 

Bolinho de Feijão

Moqueca e Caipirinha

A viagem de carro durou cerca de 4 horas e passa por três estados: Pernambuco, Bahia e Piauí.  Desse trajeto, cerca de 40km são de estrada de terra então vale atenção na escolha do carro para o percurso. A paisagem da caatinga é simplesmente deslumbrante.

Paisagem da Caatinga

No caminho, ainda na Bahia, paramos para visitar a vinícola Miolo, que inaugurou em 2008 a Vinícola Ouro Verde, sua unidade no vale do São Francisco.  A Miolo organiza roteiros de degustação e conta até com um passeio de barco pelo Rio São Francisco, saindo também de Petrolina. 

Vinícola Ouro Verde

Vinhas

Hospedagem

Nós nos hospedamos na cidade de São Raimundo Nonato, que fica a uns 20 minutos de carro do parque. É a maior cidade da região então conta com algumas opções de hotéis e restaurantes, como o Real Hotel.  Também há a opção de se hospedar no Albergue Serra da Capivara, que fica do lado da fábrica de cerâmica do parque e mais próximo aos sítios arqueológicos.

Na fábrica de cerâmica

Belíssimos exemplares produzidos na fábrica de cerâmica do Parque

Em resumo, o Parque da Serra da Capivara é um tesouro nacional - além de toda a história e arte local, o passeio ainda conta com impressionantes formações rochosas. Ao passear pelo parque, não pude deixar de me deslumbrar com o lugar.  É impressionante como como um único país consegue reunir paisagens tão belas porém tão únicas e distintas.

DSC_0686.JPG

Documenta e Skulptur Projekte 2017

2017 será um ano importante e atípico no mundo das artes. Isso porque quatro grandes eventos internacionais de arte acontecem ao mesmo tempo: a Bienal de Veneza, na Itália, Art Basel na Suiça, o Skulptur Projekte Münster (SPM) e o Documenta, em Kassel, ambos na Alemanha.

Diferente da maior parte das feiras de arte, que acontecem com uma frequência anual ou mesmo bienal, as edições do Documenta e do Skulptur Projekte Münster são mais espaçadas – o Documenta ocorre uma vez a cada cinco anos, enquanto o SPM acontece uma vez por década. Essa diferença em temporalidade confere a essas mostras um clima particular.  Cabe ao diretor o desafio de estabelecer uma ponte com a edição anterior e refletir sobre todas as mudanças que aconteceram nesse período, entre uma mostra e outra. Cinco ou dez anos são períodos longos, o que possibilitam portanto uma reflexão mais aprofundada sobre como o mundo se transformou nesse meio tempo - uma reflexão e um distanciamento que uma mostra bienal não consegue ter.

Apresento a seguir um resumo sobre a história dessas mostras e o que tem chamado a atenção nestas edições de 2017.


Skulptur Projekte Münster

Essa quinta edição do SPM contará pela primeira vez com o envolvimento de uma segunda cidade – a cidade industrial de Marl, a 20 km de Münster.  A mostra dedicada a esculturas no espaço público, inclui nesse ano também exemplares de videoarte e performance, e teve curadoria do alemão Kasper König, fundador do evento em 1977.

Das mais de 30 obras espalhadas pelas cidades, a que mais tem chamado a atenção é a instalação “After Alife Ahead”, do francês Pierre Huyghe.  A instalação foi feita no interior de um ringue de patinação de gelo desativado, cuja estrutura já apresenta traços de degradação.

“After Alife Ahead”, do francês Pierre Huyghe. Fonte: https://news.artnet.com/exhibitions/skulpture-projekte-2017-highlights-988964

O chão foi recortado usando um algoritmo lógico, utilizado nos testes de QI.  O recorte da laje de concreto no piso abriu espaço para a criação de uma paisagem artificial, composta por terra e lama. Perante a escala da obra e a força da natureza, o homem se depara com a sua pequenez. Algo que relembra a sensação de deslumbramento e do sublime, já retratado na obra do alemão Casper David Friedrich.

"O Mar de Gelo" (1823–24), pintura de Caspar David Friedrich

"O Mar de Gelo" (1823–24), pintura de Caspar David Friedrich

Além da criação da paisagem, o artista trouxe vida para o espaço, colocando pavões a mostra numa caixa de vidro e colmeias nos pilares. Duas aberturas zenitais abrem e fecham de tempos em tempos, permitindo a entrada de luz e ar, e consequentemente alterando o ambiente interno. A energia e vitalidade do espaço são capturadas por sensores que transmitem essas informações para incubadoras que contem células de câncer, cujo crescimento é diretamente influenciado pela mudança da temperatura no ambiente.

Essa não é a primeira obra de arte a trabalhar com microorganismos. Em dezembro 2016, para a comissão Hyundai para o turbine hall no Tate Modern, em Londres, o artista Philippe Parreno propôs a mostra ANYWHEN, onde também monitorava o movimento de visitantes e sua influência sobre os microoorganismo no espaço. A taxa de reprodução desses microorganismos provocavam mudanças nas projeções.

Documenta 14

Nesta sua 14ª edição, o Documenta, que geralmente acontece em apenas uma cidade, também se dividiu em duas localidades: neste caso foi Atenas, na Grécia (de abril-julho) e Kassel (entre Junho e Setembro).

A escolha por se dividir em dois países está profundamente relacionada à crise econômica da Grécia e às duras sanções enfrentadas pelo país (muitas delas impostas pela própria Alemanha). A mostra vem com o objetivo de estreitar e refazer o laço entre esses dois países, através da arte e da cultura.

Além disso, a Grécia foi uma das principais portas de entradas dos refugiados na Europa, desde o estopim da guerra na Síria. As obras nesta edição do documenta são em grande parte políticas, com ênfase na questão da imigração. 

Apesar desta edição estar particularmente politizada, é válido lembrar que a feira nasceu com um forte cunho político.  Sua primeira edição ocorreu em 1955, apenas 10 anos após o fim da segunda guerra.  Fundado pelo curador Arnold Bode, a feira originalmente foi parte do Bundesgartenschau (Federal Garden Show), tinha o objetivo de inserir a Alemanha no circuito de arte internacional e deixar a repressão do nazismo para trás. Suas primeiras edições contaram com obras apenas de artistas europeus e incluíram trabalhos de artistas que Hitler desaprovava, rompendo com o passado sombrio e caminhando para um novo momento. Aos poucos, o Documenta foi se abrindo para artistas de outros continentes. Participaram da primeira mostra artistas como Picasso e Kandinsky e, em edições mais recentes, artistas como Joseph Beuys e Gerhard Richter.

Entre as obras emblemáticas desta 14ª edição, está o Parthenon de Livros em Kassel, que faz alusão ao berço da cultura grego. A artista argentina Marta Minujín criou uma réplica do Parthenon, constituído por livros proibidos ou censurados ao longo da história – um símbolo da repressão política. A obra já tinha sido montada antes em Buenos Aires, em 1983, e foi novamente apresentada nessa edição da Documenta. O trabalho participativo contou com a doação de livros de diversas editoras.

Marta Minujín: El Partenón de libros, Buenos Aires, 1983. © Photo: Marta Minujín archive Fonte: http://u-in-u.com/fileadmin/_processed_/f/9/csm_Minujin-partenon-750-475_b8e47363f6.jpg

Apesar da influência do evento e engajamento político, surgiram várias críticas à documenta deste ano. Em artigo na sleek mag, a editora Jeni Fulton critica a falta de explicações, justificativa ou mesmo clareza nas sinalizações e nos rótulos dos trabalhos em exposição. Muitas delas sequer indicam o nome do artista ou título da obra. Essa falta de informação intencional por parte da curadoria demonstra, segundo ela, uma falta de respeito para com os visitantes e com os próprios artistas.

A escolha pela Grécia em um momento de ‘desencanto’ do ocidente – desencanto com a política, com a economia - é especialmente simbólico, visto que a Grécia é o berço da cultura, onde surgiu a democracia.  Como perguntou Ronaldo Lemos em artigo para a Folha, seria a arte a resposta para salvar o desencanto do ocidente? 

Brancusi e Sérgio Camargo

Inspirado pelo construtivismo russo, movimento vanguarda do início do século XX, liderado por artistas como Kazimir Malevich e Alexandre Rodchenko, o construtivismo no Brasil ganhou força após a segunda guerra mundial e se desenvolveu predominantemente através do trabalho de dois grupos distintos do concretismo – o grupo ‘Ruptura’, de São Paulo, e o grupo ‘Frente’, do Rio de Janeiro.  Apesar da natureza construtiva de sua obra, Sérgio Camargo não fez parte destes grupos. Tampouco pode a sua obra ser enquadrada no movimento ‘neoconcreto’, que conta com Amílcar de Castro, Franz Weissmann e Lygia Clark entre os seus principais representantes.  Embora as suas esculturas também lidem com formas geométricas, Camargo desenvolveu uma linguagem única e particular. Com isso, ele dificilmente se encaixa em um estilo específico, adquirindo assim um papel de destaque na arte moderna brasileira.

Apesar desta independência, Camargo sofreu uma série de influências ao longo de sua trajetória.  Além da clara influência de Henri Laurens em suas primeiras obras em bronze, o impacto da obra de Brancusi ao longo de sua evolução é evidente.

Vida e Obra de Sérgio Camargo (1930-1990)

Nascido no Rio de Janeiro em 1930, o escultor iniciou os seus estudos no mundo da arte aos 16 anos, na Academia Altamira, em Buenos Aires, onde teve aulas com Emilio Pettoruti e Lucio Fontana.  Em 1948, viajou para a Europa. Na França, entrou em contato com a obra de Constantin Brancusi, cujo ateliê ele visitou em diversas ocasiões.  Camargo voltou a Europa em 1961, desta vez para residir em Paris. Ele viveu na capital francesa durante 13 anos, momento em que produziu algumas de suas obras mais importantes e participou de diversas exposições internacionais. Após o seu regresso ao Rio de Janeiro em 1974, Sérgio montou um ateliê, onde continuou trabalhando até falecer em 1990.

“Relevos” (1963-1975)

Sérgio Camargo. “Relevos” Fonte: http://azureazure.com/files/Images/Bulletins/Culture/spring_auction/Spring-AuctionINT02.jpg

Camargo estava na França quando deu início a sua série “Relevos”, em 1963.  Embora Paris não fosse um ambiente propício ao construtivismo nessa época, Camargo seguiu por mais de 10 anos nessa sua pesquisa. Seguindo um processo que o próprio artista denominava como “geometria empírica”, os ‘relevos’ são obras que resultam de uma composição combinatória e opositiva entre cilindros brancos de madeira.  Os cilindros variavam de tamanho e eram cortados em ângulos diferentes, diferenças que atribuíam um aspecto aleatório e inusitado a um processo regrado. O gesto de constante contradição também atribui um elemento de conflito e tensão à obra.

A sua arte não parte de uma imagem previamente idealizada - ela era uma consequência do seu método de trabalho. Em seu processo, Camargo opunha sistematicamente os cilindros, porém, após uma série de repetições, posicionava uma peça diferentemente das demais.  Este rompimento com o rigor absoluto e com a rigidez das regras pré-estabelecidas pelo próprio artista é uma característica determinante da obra de Camargo.  Ou seja, o método de Camargo permitia a estruturação e ao mesmo tempo dava margem ao improviso.  O processo não é arbitrário mas também não é uma seriação mecânica. O método no caso do Sérgio não é uma prisão - é libertação.

“Trombas” ou o domínio no plano (1970)

A série “trombas” de Camargo é especialmente significativa porque ela marca a transição do plano para o volume.  Enquanto em sua série “relevos”, as composições utilizavam o plano como base, em “trombas” há uma intenção de romper com o plano através do volume, conquistando assim uma espacialidade.

Fig. esquerda. Sérgio Camargo. Fonte: http://www.itaucultural.org.br/

Fig. direita. Sérgio Camargo. n. 311. 1970. Fonte: http://www.iacbrasil.org.br/obra/n-311

Diferente da obra de Amílcar, que explora o plano em seu valor escultórico pelo peso de sua espessura, Camargo busca o domínio do plano para enfim conquistar o volume.  Após uma extensa investigação na série “relevos”, explorando diferentes escalas e combinações sobre o plano, Camargo sente então a necessidade de romper com o plano para enfim conquistar a tridimensionalidade.  Este movimento de ruptura torna-se claro na série “Trombas”, onde os planos são atravessados de forma agressiva por cilindros mais robustos e violentos. Para eventualmente desprender-se do plano, era preciso conquistá-lo antes. Isso traz uma nova eloquência e dramaticidade ao conjunto.  Há uma tensão latente com as trombas pedindo para sair do plano. As trombas invadem o espaço com uma energia e um senso de urgência.

Materialidade

Ao longo de sua carreira, Camargo experimentou com diferentes tipos de materiais. Passando pelo uso do bronze em suas primeiras obras nos anos 50, Camargo realiza as suas primeiras experimentações com estruturas em gesso, areia e tecido na década de 60 e explora vastamente a madeira nas suas séries “relevos” e “trombas”.  Já meados dos anos 60, surgem as suas primeiras obras em mármore, que veio a se tornar o seu principal material a partir da década de 70.

Sérgio Camargo. Sem título. Fonte: http://www.lissongallery.com/

A escolha de um material tão tradicional, característico das esculturas da antiguidade. Para Sérgio, a matéria era fundamental e o mármore de massa profunda é um material luminoso que assimila e irradia luz.  O material possui uma luz própria e não precisa, portanto, de qualquer tratamento posterior superficial. Além disso, o acabamento natural polido do mármore dá um aspecto mais brilhante, nobre e até mesmo dinâmico ao conjunto.  Sérgio considerava ainda que uma das grandes virtudes do mármore branco era a sua ausência. Com a sua luz natural e cor branca, o mármore Carrara revelava a forma em sua pureza.  A escolha pelo mármore realça uma certa estabilidade e permanência dos trabalhos. 

Nos anos 80, Camargo iniciou uma nova série de experimentações com outro tipo de mármore – o mármore pedra negro-belga.  Nesta série, sua pesquisa se desdobrou sobre os limites físicos da matéria, fazendo cortes cada vez mais agudos e angulados, a fim de testar até que ponto a peça aguentava. Estes estudos resultaram em cilindros esguios e elegantes.  

Sérgio Camargo. Sem título. Fonte: http://www.lissongallery.com/

Chegou um determinado momento em que ele não conseguiu mais cortar as peças. Aumentando gradativamente as angulações, ele atingiu eventualmente ao limite da matéria.  Com isso, ele pôs um fim a essa pesquisa e retornou ao estudo do plano.  Buscando um novo começo, uma nova resposta.

Constantin Brancusi (1876-1957)

Nascido em Hobitza, um vilarejo na Romênia, o escultor Brancusi estudou em seu país natal nas escolas de arte de Craiova e de belas artes de Bucareste, até mudar-se para Paris, em 1904, onde constituiu a sua carreira e viveu pelo resto vida.

Brancusi foi um dos primeiros escultores abstratos e tornou-se particularmente conhecido pela simplificação de formas e símbolos.  Ele era um grande admirador das obras de Rodin e realizou diversos estudos de simplificação de formas de seu mestre.  Sua pesquisa girava em torno de figuras como peixes, pássaros e cabeças, simplificando estas figuras ao ponto de chegar quase à abstração. 

Muitos críticos consideram que Brancusi foi o pioneiro e verdadeiro escultor cubista. Embora artistas do cubismo, como Miró e Picasso, produziram esculturas além de suas pinturas, estas eram mais uma projeção das formas abstratas e descontruídas da tela no espaço.  Elas nasciam da pintura para então se desdobrarem no espaço. As esculturas de Brancusi, entretanto, eram volumétricas em sua essência. Brancusi demonstrava um domínio completo da espacialidade e da tridimensionalidade nas suas figuras.

A principal característica da obra de Brancusi é a figuração do volume.  Suas obras não chegam a ser abstratas, mas são simbólicas, simplificações que representam a figura que ele busca representar. Bons exemplos deste trabalho de simbolismo são as esculturas “a bruxa” ou “a tartaruga voadora”, apresentadas nas imagens abaixo. Vale observar que os braços da bruxa se assemelham às “trombas” de Camargo.

Fig esquerda. Constantin Brancusi. The Sorceress. Fonte: http://www.wikiart.org/

Fig direita. Constantin Brancusi. Flying Turtle. Fonte: http://www.guggenheim.org/

Comparativo entre a obra de Brancusi e de Sérgio Camargo

Obra e Processo

A obra de Brancusi parte da desconstrução e da simplificação dos signos.  Em um processo que tende à abstração, as suas esculturas mantêm sempre uma relação com o signo linguístico.  Suas esculturas partem de uma ideia figurativa ou imaginária e, a partir de um processo de reinterpretação e reconstrução, geram um novo símbolo.  A partir de um estudo aprofundado sobre o objeto em questão, captava-se a essência dos signos para então criar algo novo que nasce do já conhecido, do familiar.  Um processo rigoroso norteado pela busca da forma e do significado.

A obra de Camargo, por outro lado, não parte de uma ideia anterior – ela era o resultado inesperado de um processo combinatório.  Dentro de uma metodologia de contraposição sistemática de partes, rompida por momentos de aleatoriedade, o destino de cada cilindro é encontrar o outro.  Nesse sentido, podemos dizer que foi dado um passo além de Brancusi, que não possuía qualquer arbitrariedade em seu processo.  Este componente arbitrário da obra de Camargo, que rompe com o rigor do método, se aproxima do movimento ‘all-over’ americano, pela falta de hierarquia e o fim da composição.

Apesar de possuírem partidos e processos distintos, as formas dos artistas se assemelham:

Materialidade

Fig Esquerda. Sérgio Camargo. Sem título. 1980. Fonte: http://www.lissongallery.com/

Fig direita. Constantin Brancusi, La Muse Endormie, 1923-2010 Fonte: www.yatzer.com

Brancusi e Camargo possuíam atitudes semelhantes em relação à matéria.  Para ambos os artistas, a matéria era um meio para revelar a forma, e não uma condicionante. Os dois eram avessos a tratamentos de superfície no material.  Brancusi considerava que qualquer tratamento de superfície era suspeito.  Ele dizia que a forma deve aparecer por conta própria, independente das características da matéria e do tratamento de superfície.

Embora Brancusi tenha trabalhado mais sobre a madeira e o bronze enquanto Camargo se debruçou sobre o mármore, a abordagem dos dois era semelhante. A forma não era uma consequência da matéria, uma pesquisa sobre as suas propriedades físicas, mas concepção e do método do próprio artista. O artista não se submetia à matéria – a matéria é que se submetia ao artista.

Para obter a forma ou resultado desejado, Camargo e Brancusi se dedicaram ao estudo das propriedades das matérias.  Brancusi, inclusive, estudou técnicas de artesanato. Do mesmo modo que Camargo que teve que dominar o plano para eventualmente conquista-lo, Brancusi fez uma imersão no processo do artesanato para superá-lo e então desenvolver as suas formas tão particulares.

 

Fig esquerda. Sérgio Camargo, Sem Título, 1970. Fonte: http://www.artnet.com/artists/sergio-camargo

Fig  DIREITA. Constantin Brancusi, Torso of a young man , 1917. Fonte: http://ardor.net/

 

Tributo à tradição

Enquanto nas séries “relevos” e “trombas”, a base, que no caso é o plano, é fundamental­, as esculturas em mármore de Camargo geralmente eram concebidas para não terem uma base.  Este gesto de emancipação, característico do movimento moderno, atribuía uma maior liberdade à peça.  A obra não obedecia uma base, não era submetida a ou limitada pela mesma. 

Já para Brancusi, a base garantia a autonomia do objeto e a integridade da escultura. Ela era a garantia de que a obra seria sempre apreciada da sua melhor forma.  Ou seja, num mesmo gesto de busca de autonomia da obra, verificamos soluções opostas – Camargo se abstém da base enquanto Brancusi a abraça.

Além disso, Brancusi se aproveitava das bases para fazer um tributo à tradição, reproduzindo nelas detalhes decorativos de outras épocas. Este respeito pela tradição também se faz presente na obra de Camargo, evidenciado pela escolha e o uso de um material tão nobre e tradicional como o mármore.  

----

Camargo e Brancusi.  Ambos escultores do movimento moderno que escolheram Paris para residir em momentos diferentes. Ambos sofreram influência do ambiente criativo que lá se instalava, mas conseguiram criar uma linguagem própria e única neste meio.

A aproximação formal entre as obras de Brancusi e Camargo é particularmente surpreendente se levarmos em conta as disparidades entre o método e o partido de ambos.  A escolha e o uso dos materiais também diferem entre os dois, embora sigam uma mesma abordagem nas pesquisas sobre as propriedades da matéria e um mantenham respeito pela tradição.

Exposição “Composições”

Uma boa dica para os cariocas e visitantes passando pela cidade do Rio de Janeiro é conhecer o Hostel Contemporâneo, no bairro de Botafogo.  O projeto do hostel é assinado pelo artista e arquiteto Alessandro Sartore.  Além de albergue, o espaço conta com um charmoso café do lado de fora, cuja cozinha funciona num contêiner estilizado, e uma pequena praça aberta para a rua Bambina, um espaço que propicia o encontro e a realização de eventos.

hostel contemporâneo visto da rua bambina

café do lado de fora do hostel e pequena praça aberta para a rua bambina

hall do hostel

recepção do hostel

espaços de circulação

espaços comuns do hostel recebem exposições temporárias

Além da hospedagem e do café, o Hostel Contemporâneo também tira proveito dos seus espaços comuns e de circulação para a realização de exposições, o que eles chamam de ‘Galeria Wall’.  A mostra atual, intitulada “Composições”, reúne o trabalho dos alunos do artista João Magalhães, professor do curso de Pintura da Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV).  A exposição, que tem a curadoria de Isabel Sanson Portella, conta com obras de 25 artistas e segue aberta até final de fevereiro.

Obra de Lair Uaracy

Obra de Lair Uaracy

"Construções" de mariana Magalhães Costa

obras de Bernardo Sá Earp e margaret de castro

obras de Bernardo Sá Earp e margaret de castro

obras de margaret de castro, rosana diuana e bENJAMIN ROTHSTEIN

"Índios ss" de fabio kerr

"inserções diluídas" de luiz felipe guaycuru

obra sem título de mário camargo

obra sem título de mário camargo

"silent revolution III" de luciana gaspar

OBRA DE VERÔNICA CAMISÃO

"composição geométrica no 21" de josé luiz schaefer

Chiharu Shiota no SESC Pinheiros

Aos que estiverem em São Paulo essa semana, ainda dá tempo de conferir a exposição “Em Busca do Destino” no SESC Pinheiros, que traz 3 intervenções da artista japonesa Chiharu Shiota.  Shiota já foi assunto aqui no blog com a sua belíssima intervenção para a Bienal de Arte de Veneza 2015. A exposição termina domingo, dia 10 de Janeiro.

“Em busca do destino”, que é a primeira exposição da artista no Brasil, traz uma reflexão sobre a vida que poderia ter sido. Shiota diz que sua família cogitou se mudar do Japão para o Brasil e que ela facilmente poderia ter nascido aqui.  Ao andar por São Paulo, especialmente pelo bairro da liberdade, ela procurou imaginar a vida que poderia ter sido.

Sapatos foram doados pelas pessoas

A memória é um tema recorrente na obra da artista.  Ela utiliza objetos antigos e do cotidiano - cartas, malas e sapatos – objetos que, segundo ela, estão repletos de histórias e sentimentos.

INTERVENÇÃO COM MALAS ANTIGAS PENDURADAS SOBRE A ESCADA ROLANTE.

Suas intervenções contaram com a participação da população, que se dispôs a doar sapatos e a escrever as cartas de agradecimento que foram utilizadas na instalação principal.  Embora cada obra ocupe o espaço de uma maneira diferente e seja composta por elementos distintos, todas elas tem um fio condutor em comum, uma linha de lã que liga os objetos entre si.  Essas linhas enaltecem a relação entre os objetos e também agem como estrutura da obra.

"Cartas de agradecimento". A composição de linhas gera corredores.

Bienal de Arte 2015 | Veneza, Itália

Sob a curadoria do nigeriano Okwui Enwezor, o tema da bienal de arte de Veneza deste ano foi “All the World’s Futures”.  Durante a minha passagem relâmpago pela cidade, eu não consegui ver toda a bienal, que além de incluir a mostra no ‘arsenale’ e os pavilhões de mais 29 países no ‘giardino’, ainda conta com uma série de exposições paralelas espalhadas pela cidade. Para visitar a bienal com calma, eu diria que pelo menos dois dias seria o ideal.  Nesta minha visita, priorizei a visita aos pavilhões do giardino.  Faço aqui uma seleção dos 5 melhores pavilhões deste ano e uma breve descrição de cada um.

Pavilhão Japonês

O pavilhão do Japão trouxe uma intervenção da artista Chiharu Shiota, japonêsa radicada em Berlim.  Sob o nome “The Key in the Hand” (A chave na mão), a instalação era composta por três elementos distintos: a chave, a canoa e a linha vermelha. A chave e a canoa simbolizam a memória: a chave porque ela liga as pessoas umas às outras e a canoa porque ela liga as pessoas aos lugares.  As linhas vermelhas surgem como fio conector, ligando estes dois elementos entre si.  O desenho formado pelas linhas vermelhas gera um corredor emoldurado, uma espécie de túnel. As chaves entrelaçadas ao longo das linhas foram coletadas pelo artista em viagens por diferentes países.  Em sua essência, a obra fala sobre tempo e memória.  Uma instalação que nos envelopa por completo. O resultado é sensível e contundente.

Chaves coletadas pelo mundo

Pavilhão Escandinavo (Noruega, Finlandia e Suécia)

Intervenção de Camille Norment assume a forma de molduras, que se assemelham às esquadrias do pavilhão.

Belíssimo exemplar de diálogo entre arte e a arquitetura.  O que averiguamos na intervenção de Camille Norment para o pavilhão da escandinavia é praticamente uma simbiose entre a arte e a arquitetura.  A artista criou molduras com dimensões semelhantes às esquadrias do edifício. Ela então dispôs essas molduras próximas das fachadas envidraçadas, porém inclinadas, amontoadas umas sobre as outras como se estivessem jogadas.  Entre elas, verificamos ainda pedaços de vidro estilhaçados pelo chão.  Em alguns casos, as arestas destas molduras jogadas se alinham com a estrutura das janelas do pavilhão. Adquirimos então a impressão de que estas molduras, que foram ali colocadas, surgem do próprio edifício. Essa disposição nos dá a impressão de que elas estiveram lá o tempo todo, que realmente fazem parte do conjunto. Com isso, a nossa percepção do edifício e de seus limites é modificada.  Ao mesmo tempo em que temos uma sensação de revolta ao nos depararmos com essas estruturas quebradas, a semelhança das molduras com o edifício transmite uma sensação de harmonia no conjunto.  A obra gera uma tensão e uma harmonia simultaneamente.

Molduras se assemelham às esquadrias do prédio, há uma harmonia entre a inserção e o existente.

Ao adentrarmos mais no interior do pavilhão, nos afastamos dessas molduras anguladas e chegamos a um espaço vazio, sem barreiras físicas, mas com alto-falantes gigantescos que se projetam do teto.  Aqui, a ambiência não é mais criada por barreiras ou elementos físicos, e passa a ser criada apenas pelo som.  Ultrapassando as primeiras barreiras, adentramos um espaço de contemplação

Som cria a ambiência no interior do pavilhão

Pavilhão Francês

Céleste Boursier-Mougenot trouxe uma árvore que se move para o pavilhão francês.  A artista criou uma simbiose entre a natureza e a máquina. Deparamo-nos com uma espécie híbrida, fruto da natureza com a intervenção humana.  A árvore cinética foi colocada no ambiente central do pavilhão, sob uma claraboia.  Os ambientes ao redor tiveram o seu chão coberto por um estofado macio (que à primeira vista parece feito de pedra) para que os espectadores possam sentar e relaxar, contemplando a árvore no centro.  Além dos estofados, essas salas possuem alto falantes que ampliam o som do motor que move a árvore.  Ou seja, aqui, o zumbido gerado pela tecnologia é o ruído constante que transmite a paz e cria uma ambiência quase meditativa.  A serenidade que as pessoas buscam na natureza são recriados aqui pela tecnologia.

Pavilhão Holandês

O pavilhão holandês seguiu uma tendência que eu particularmente gosto muito e considero inclusive muito pertinente ao momento atual.  Como falei no post anterior, a Expo Universal de Milão deste ano trouxe o tema de alimentação.  Em sintonia com essa discussão, o artista Herman de Vries, em sua mostra intitulada “to be all ways to be”, reúne obras que apresentam materiais e alimentos em sua essência.  Entre elas encontramos uma série de quadros com pigmentos de diferentes países, uma série de paisagens constituídas a partir de ramos de trigos, uma composição de botões de rosa seca expostos no chão e uma coleção de foices, simbolizando o movimento, manipulação humana da terra.  O interessante desta mostra é que ela traz ao espaço expositivo elementos muito ligados a terra, reforçando essa crescente consciência de contato e retorno a natureza, a importância de uma postura cada vez mais sustentável.   A obra de De Vries ressalta a união e, ao mesmo tempo, a diversidade entre estes elementos.  As nações se unem em suas semelhanças, porém também em suas diferenças, suas particularidades e complementariedades.

Composição com botões de rosa seca

quadros com pigmentos de diferentes países

Paisagens constituídas a partir de ramos de trigos

Pavilhão da Romênia

Em uma expo de soluções high tech e obras que exploram a espacialidade, uma série de pinturas parece algo do passado, ‘out-of-date’. De fato, a pintura já foi muito explorada ao longo da história da arte e, por ser uma linguagem tradicionalmente estabelecida, é mais difícil de inovar nela. Não é de se surpreender, portanto, que as pinturas estão se ausentando das mostras de arte contemporânea, ou pelo menos, já não ocupam o papel central. Por isso mesmo, a atitude do pavilhão da Romênia consegue ser ao mesmo tempo corajosa e despretensiosa. 

pintura de adrian ghenie

O pavilhão reúne 20 quadros do artista Adrian Ghenie, que olha os desenhos e os estudos de Charles Darwin sobre um prisma considerando a história do século 20.  O resultado é uma coleção bela e contundente, retratando figuras históricas marcantes (como Hitler, Lenin, van gogh...), protagonistas e anti-heróis num contexto abstrato e distorcido.

Bônus:

Pavilhão Finlandês

Construído em 1956, o pavilhão finlandês foi idealizado como uma estrutura temporária só para a exposição daquele ano.  O pavilhão permanece desde então. Projetado por Alvar Aalto, o pavilhão é composto por uma estrutura de madeira e foi inteiramente confeccionado na Finlândia.

Pavilhão de Israel

Tsibi Geva faz uma intervenção que explora um tema recorrente de sua obra – a ideia do lar, do corpo e do cotidiano.  Sob o tema ‘arqueologia do presente’, o artista utiliza objetos do cotidiano e faz uma intervenção que vai além dos limites físicos do pavilhão israelense.  Ele cobriu as fachadas com pneus de borracha, e no interior cobriu as paredes com elementos que vão desde eletro-domésticos e esquadrias a caixas de papelão.  Além dessa composição, há também pinturas.

Pavilhão Húngaro

A mostra “Sustainable Identities” de Szilárd Cseke traz uma instalação que ocupa todo o teto do pavilhão.  O visitante passa por baixo de uma estrutura de tubos de PVC com esferas internas que ficam se locomovendo a partir de ventiladores.  O movimento dessas bolas representa a transitoriedade das coisas e o movimento das pessoas.  Um assunto pertinente sobretudo nesse momento de discussão política acerca da imigração.

A Bienal de Arte de Veneza é uma excelente oportunidade para se familiarizar com obras de artistas de outros países que não conhecemos, muitos dos quais que já obtiveram algum reconhecimento nos seus países, mas nem sempre adquiriram status de reconhecimento internacional. A mostra segue em Veneza até o dia 22 de Novembro.

Inhotim | Brumadinho, Minas Gerais

Inaugurado ao grande público em 2006, o centro cultural Inhotim vem sendo destacado entre os principais museus a serem visitados no mundo. Agregando um importante acervo de arte moderna e contemporânea, o museu conta com obras de artistas como Adriana Varejão, Yayoi Kusama, Olafur Eliasson, Miguel Rio Branco, Hélio Oiticica, Lygia Clark e muitos outros.

Situado em Brumadinho, um município de 35 mil habitantes, o museu Inhotim fica a aproximadamente 50 km da capital do estado de Minas Gerais, Belo Horizonte.  A localização afastada já requer uma viagem até lá, um ato de peregrinação em busca da arte.  A viagem, portanto, é um período de transição, de preparação. A sensação ao chegar lá é de que se adentra um lugar realmente especial, quase sagrado, e longamente aguardado. 

A beleza de Inhotim jaz sobre três instâncias – paisagística, artística e arquitetônica. O local em si é belíssimo – os diferentes percursos proporcionam belos e aconchegantes pontos de descanso, meditação e contemplação da paisagem. Os caminhos são pontuados por grandes obras de arte e por pequenas construções – pavilhões que reúnem obras de artistas convidados.  Estas edificações tiram proveito de sua pequena escala e liberdade criativa para oferecer soluções inovadoras de design e arquitetura.

Paisagismo

Não passa despercebida a beleza do mobiliário assinado por Hugo França.  São 98 exemplares espalhados pelo jardim.   O designer passou 15 anos vivendo em Trancoso, na Bahia, onde descobriu o pequi-vinagreiro, uma árvore comum na Mata Atlântica baiana mas pouco utilizada na marcenaria devido às suas irregularidades. A partir de raízes desenterradas, troncos ocos e galhos dessas árvores, França desenvolveu um novo tipo de mobiliário, extremamente único e contundente.

mobiliário desenhado por bruno frança

Arte

Yayoi Kusama, a artista japonesa já foi assunto aqui no blog no texto Yayoi Kusama no CCBB A obra intitulada “O Jardim de Narcisco”(2009) traz esferas metálicas, espelhos convexos que ocasionam o encontro do indivíduo consigo mesmo. A obra evoca o mito de Narciso, que se encanta com a própria imagem projetada na água e, ao tentar resgatá-la, afoga-se no lago. Apesar do símbolo principal da obra ser a esfera refletora, a obra é uma conjunção deste elemento com o entorno, cuja composição muito se assemelha à dos jardins japoneses. A organização e aparência das bolas variam de acordo com o vento, com a luz e demais fatores externos, o que aumenta a percepção de influência da natureza.  A obra portanto proporciona um momento de dupla contemplação: um momento de interiorização e um de consciência do que está ao redor.

Hélio Oiticica, Magic Square #5 (1977) A tradução do termo em inglês ”Square” traz dois significados diferentes – a praça e a forma do quadrado.  Na obra, Oiticica se utiliza de ambos os conceitos.  A obra faz parte de uma série de 6 obras intituladas “Penetráveis”, todas construídas após a morte do artista.  Nessa obra, o seu trabalho consistiu na produção de desenhos técnicos, diagramas e amostras que explicavam com detalhes a construção dos módulos.  O resultado é um espaço de convívio e permanência, onde a cor se manifesta de forma retumbante e eloquente.  Um estudo sobre a ocupação do espaço, a influência da cor numa escala ambiental e a sua relação com o entorno.  Essa obra é coerente com o princípio que Oiticica defendia em suas obras, aquele de aproximar a arte e a vida, algo que também encontramos na galeria ‘Cosmococas’Lá, através de uma série de ambientes, o público tem a oportunidade de interagir com a obra – seja mergulhando numa piscina, deitando na rede ou simplesmente lixando a unha.

magic square #5, de hélio oiticica

Cildo Meirelles - Inmensa(1982-2002) Escultura em aço cortén.  A obra explora diferentes escalas de um mesmo elemento, explorando relações espaciais alternadas da escultura com o contexto e dos componentes entre si.  Formas geométricas cujo arranjo faz referência a conceitos externos à obra. O próprio título já indica isso visto que o termo “in mensa” significa na/sobre a mesa em latim. É interessante observar que a obra também propõe uma inversão de lógica, visto que os elementos menores sustentam os maiores.  Esse gesto pode ser interpretado como uma metáfora de questões maiores como as estruturas políticas, econômicas e da própria sociedade.

inmensa, de cildo meirelles

Amílcar de Castro - Gigante Dobrada(2001) Escultura em Aço Cortén traz uma figura geométrica que se fecha em si mesma. Nesse movimento, uma única placa gera a distinta percepção entre o dentro e o fora, entre o interior e exterior. Um elemento bidimensional rompe as suas barreiras físicas e estabelece propriedades de espacialidade.

gigante dobrada, de amílcar de castro

Olafur Eliasson - Viewing Machine (2001) O artista dinamarquês Olafur Eliasson é conhecido pelo seu trabalho de pesquisa de luz, forma, cor e reflexos. Na sua obra ‘Viewing Machine’ em Inhotim, o artista criou um caleidoscópio com o qual podemos ver a vista.  Através deste instrumento, vemos a paisagem de brumadinho com outros olhos, apreciando novos ângulos e distorções.

viewing machine, de olafur eliasson

Chris Burden – Beam Drop (2008) Obra 'site specific' (feita para o local) na qual gigantescas vigas de aço foram lançadas em um buraco preenchido por concreto no estado fresco.  Após a performance e o período de cura, as vigas permaneceram como um grande escultura.

beam drop, de chris burden

 O vídeo a seguir mostra como foi esse processo: 

Troca-Troca - Jarbas Lopes (2002) 3 fuscas coloridos, com a lataria permutada entre si, percorreram em 2002 um trajeto saindo do Rio de Janeiro indo até Curitiba. No caminho, foram juntando histórias, experiências, memórias. Em 2007, os fuscas voltaram a pegar a estrada – desta vez de Belo Horizonte a Brumadinho. Além da descontração e coletividade pela troca das peças dos automóveis entre si, o fato dos carrinhos estarem estacionados porém com a permanente possibilidade de sair para a estrada novamente, dão a obra um caráter transitório, inconstante, inquieto, efêmero e lúdico.

~troca-troca~ de jarbas lopes

Arquitetura

Galeria True Rouge – Tunga 

O mineiro Paulo Orsini assina o projeto da Galeria True Rouge, o primeiro pavilhão a ser construído em Inhotim.  O Pavilhão abriga a belíssima obra "True Rouge"(1997), de Tunga. O projeto explora as premissas do movimento moderno; a 'promenade architecturale' pela passarela sinuosa de acesso; o pilotis da varanda, gerando um abrigo e ambiente de estar do lado de fora da galeria; o espelho d'água que proporciona um afastamento do objeto para que ele possa ser avistado a distância; e a fachada livre, que permite uma visualização da obra de Tunga a partir do exterior graças à transparência do vidro.

Pavilhão Adriana Varejão

Projetado por Rodrigo Cerviño Lopez, o pavilhão contendo as obras da artista Adriana Varejão tornou-se um dos grandes símbolos de Inhotim.  O objeto morde o terreno em aclive, enterrando-se parcialmente enquanto outra parte permanece suspensa, em balanço.  É através deste vazio sob o edifício que é realizado o acesso à galeria. A circulação interior não é feita por corredores - ela é direcionada pelas aberturas e continuações dos próprios espaços. O percurso livre oferece ao visitante uma multiplicidade de pontos de vista sobre o prédio e as obras em exposição. Um passeio que se inicia no espaço externo, pelo caminho de acesso sobre o espelho d'água, passando por dentro dos espaços expositivos e terminando enfim num terraço na cobertura.

O centro cultural é bastante inovador em termos da renovação do seu acervo.  Há obras “site specific” que são permanentes, porém muitas das galerias renovam o seu acervo e, de tempos em tempos, um novo pavilhão ou obra de arte são construídos no local.

Inhotim proporciona simultaneamente ao visitante um deslumbramento intelectual e um momento de descanso.  Ao retornar a civilização e à correria da rotina, voltamos de lá leves, com uma paz de espírito. Ao sair de Inhotim, a vontade é de voltar ainda muitas vezes ao museu.

Transarquitetônica de Henrique Oliveira | São Paulo

Inaugurada em Abril de 2014, a exposição “Transarquitetônica” trás uma intervenção do artista brasileiro Henrique Oliveira para o anexo do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP). Ao artista, coube o desafio de criar um objeto que se articulasse com o espaço projetado pelo grande mestre da arquitetura brasileira, Oscar Niemeyer.

O objeto estabelece um percurso, envolvendo o indivíduo e explorando a relação entre o corpo e o espaço. Adentramos a obra por um único acesso que, em um primeiro momento, nos apresenta um espaço ortogonal de formas puras e paredes brancas; um racionalismo característico do modernismo, presente na obra do próprio Oscar. Conforme seguimos neste corredor, o espaço começa a ser desfragmentado, expondo a materialidade por trás do revestimento imaculado.  Vemos a crueza do bloco de concreto, seguido por tijolos e paredes de barro, revelando diferentes métodos construtivos, até que finalmente chegamos à característica estrutura de madeira de Henrique Oliveira.  Nesse momento, o percurso único e contínuo é destrinchado em múltiplos caminhos. Deparamo-nos com uma estrutura completamente labiríntica.  A distinção entre piso, parede e teto deixa de existir. O corredor torna-se um túnel, com emolduramentos orgânicos, variações de pés direitos e elevações no piso. Eventualmente, saímos por buracos na casca do objeto, de onde podemos então visualizar a escultura de fora. Num movimento de retorno às origens, as terminações da escultura se assemelham às formas de galhos e raízes. 

A seguir, uma sequência de fotografias que retrata essas transições.

A 31ª Bienal de Arte e ocupação do Hospital Matarazzo | São Paulo

No segundo semestre de 2014, a cidade de São Paulo recebeu duas grandes exposições de arte contemporânea - a 31ª bienal de arte de São Paulo e a exposição "Made by...Feito por Brasileiros" no antigo Hospital Matarazzo. Trago neste texto um olhar sobre as duas exposições.

Pavilhão da bienal, projeto de oscar niemeyer, durante a 31ª bienal de arte de são paulo

31ª Bienal de Arte de São Paulo

Realizada entre 6 de Setembro e 7 de Dezembro de 2014, a 31ª edição da Bienal de Arte São Paulo foi sediada no pavilhão da bienal no Parque Ibirapuera. A mostra trouxe obras centradas fortemente em torno de temas políticos e religiosos.  O conteúdo impactante, por vezes até agressivo, fez com que, em muitos casos, o elemento estético da obra ficasse em segundo plano.  Nesta edição da bienal, a pesquisa formal abriu espaço para o protagonismo das mensagens de protesto.

Esse é o caso da obra “Espaço para Abortar”, do coletivo boliviano Mujeres Creando, logo a entrada da Bienal.  O conjunto de elementos rosados chama a atenção em um primeiro momento porém a grande força da obra está nos relatos de mulheres que sofreram um aborto.  Esses relatos podem ser ouvidos pelos headphones disponibilizados dentro de unidades que se assemelham a duchas, envoltas por véus também rosados.

“Espaço para Abortar”, do coletivo boliviano Mujeres Creando

“Espaço para Abortar”, do coletivo boliviano Mujeres Creando

“Espaço para Abortar”, do coletivo boliviano Mujeres Creando, apresenta relatos de mulheres que sofreram aborto

A seguir, outras obras presentes na bienal.

Olhar para não ver, Bik Van der Pol. Projeto participativo.

Instalação de Juan Carlos Romero.

Retratos Icônicos Sem Nome, de Éder Oliveira. suas pinturas são inspiradas em retratos de pessoas que aparecem nas colunas de jornais policiais, os ícones desconhecidos e esquecidos da nossa sociedade.

Retratos Icônicos Sem Nome, de Éder Oliveira. suas pinturas são inspiradas em retratos de pessoas que aparecem nas colunas de jornais policiais, os ícones desconhecidos e esquecidos da nossa sociedade.

Histórias de Aprendizagem, Voluspa Jarba

Letters to the reader, de Walid Raad. as paredes emergem como 'imãs de sombras perdidas' da arte árabe.

Spear e outros trabalhos, Edward Krasinski.

obra de EDWARD KRASINSKI.

OBRA DE EDWARD KRASINSKI.

OBRA DE EDWARD KRASINSKI.

Made by....Feito por Brasileiros no Hospital Matarazzo

A recorrência do tema político na arte contemporânea também pôde ser averiguada na exposição “Made by....Feito por Brasileiros”, realizada no antigo Hospital Matarazzo entre os meses de Setembro e Outubro de 2014. O prédio, fechado ha duas décadas, será reaberto após a reforma.  Nesse período de transição, suas portas foram abertas a uma invasão criativa destes artistas.  A mostra trouxe diversas obras de cunho político e crítico - o próprio ato de ocupação temporária já é simbólico por si só. A seguir, algumas das obras que mais chamaram a minha atenção na mostra.

À entrada, a magnífica intervenção do artista belga Arne Quinze

INTERVENÇÃO DO ARTISTA BELGA ARNE QUINZE

INTERVENÇÃO DO ARTISTA BELGA ARNE QUINZE

Daniel Senise

DANIEL SENISE

Studio Drift

Studio Drift

Maria Neponucemo

Maria Neponucemo

Daniel de Paula

Joana Vasconcelos

A exposição contou com duas obras da artista portuguesa Joana Vasconcelos. A primeira delas foi o "Piano Dentelle #2", um piano revestido de renda que na inauguração foi objeto de destaque na performance de Fafá de Belém. A cantora se apresentou com um vestido da mesma renda do piano. (ver vídeo abaixo)

"Piano Dentelle #2", obra de joana vasconcelos

"PIANO DENTELLE #2", OBRA DE JOANA VASCONCELOS

A segunda obra foi a instalação “Valquíria Matarazzo” dentro da capela da Cidade Matarazzo.  O espaço foi ocupado por formas orgânicas têxteis revestidas por luminárias LED.

Genius Loci, exposição de arte contemporânea | Veneza

Durante a Bienal de Veneza, há sempre uma série de eventos paralelos que ocorrem na cidade, desde exposições a mostras de teatro, cinema e dança.  Dentre estes, tive a oportunidade de visitar a exposição de arte contemporânea intitulada “Genius Loci”, termo em latim cuja tradução significa o “espírito do lugar”.

Obra de Anish Kapoor na entrada da exposição

Para o arquiteto norueguês Christian Norberg-Schulz, o 'genius loci' se torna presente através da arquitetura e pela relação do indivíduo com o espaço:

Movendo-se através dos espaços, a pessoa pode frequentemente reviver as emoções relacionadas a eles de encontros anteriores, ou aplicar modelos de lugares anteriormente visitados. Estas emoções estão associadas ao visitante. No entanto, também fica claro que o próprio lugar tem um jeito dele, um estado emocional, independente do estado de espírito do visitante no momento do encontro. Isto se chama o sentido do espírito do lugar, genius loci.
— Christian Norberg-Schulz

Nesta exposição, que permanece aberta para visitação de Junho a Novembro de 2014 na Galeria Lisson do Palazzo Cavalli Franchetti, alguns dos maiores nomes da arte contemporânea foram convidados a produzir obras e instalações relacionadas ao tema.  Entre os 14 artistas participantes estavam o indiano Anish Kapoor, o Chinês Ai Weiwei e a portuguesa Joana Vasconcelos. Abaixo, algumas fotos da exposição.

Anish kapoor

richard long

Richard Deacon, Gap 1-8

Tony Cragg, Hedge

Ai Weiwei, Tree

Spencer Finch

Daniel Buren, A White Triangle as a Mirror

Joana Vasconcelos, Glasshouse

Ai Weiwei, Forever (1179 Bicicletas)

FLIP 2014 (Parte 2) | Feira literária internacional de Paraty

Mesa 7 | 'À mesa com Michael Pollan'

Michael Pollan é um jornalista que nos últimos anos vem realizando um estudo sobre a saúde, alimentação e a indústria alimentícia nos Estados Unidos.  Seus livros “O Dilema do Omnívoro” e “Cozinhar”, que acaba de ser lançado em português no Brasil, estiveram na lista dos livros mais vendidos nos EUA segundo o The New York Times.  

O Jornalista americano Michael Pollan Fonte: paraty.com.br/flip

Em um primeiro momento, ele se perguntou: “de onde vem a comida?” Nós perdemos o vínculo com a origem do processo e desconhecemos o desenvolvimento da cadeia alimentar. Essa sua curiosidade o levou ao início de tudo, conhecendo as fazendas e plantações.  Ele nos contou sobre as paisagens moldadas pela indústria alimentícia e de como o interior dos EUA se assemelha a uma grande fábrica.  As paisagens rurais estão sendo moldadas de acordo com a lógica fabril, dividindo os solos e as plantações em setores que não conversam.

Para Pollan, o ato de cozinhar a própria comida é de extrema importância.  Esse ato nos aproxima da natureza, ajuda-nos a conhecer melhor os seus frutos, além de nos dar um maior controle sobre a nossa saúde e bem-estar. Isso sem contar que grande parte da socialização e da educação cívica ocorre em torno da mesa. Para ele, cozinhar chega a ser um ato político, pois assim as pessoas retomam o poder sobre a sua dieta, sobre o preparo e sobre o que elas vão comer.  Há anos a indústria vem preparando a nossa comida - seja nos fast foods, nas comidas semi prontas ou nos congelados.  O que ele chama de ‘comida processada’ ou ‘embalada’ é muito comum e recorrente.

Seus livros propõem uma nova maneira de pensar as nossas refeições, não a partir de calorias, vitaminas e moléculas mas a partir da comida em si.  Para mais informações sobre a sua pesquisa, vejam aqui uma excelente reportagem sobre ele na Folha de São Paulo:

http://www1.folha.uol.com.br/serafina/2014/07/1490666-voltar-a-cozinha-e-um-ato-politico-diz-jornalista-michael-pollan-atracao-da-flip.shtml

Mesa 13 | 'A verdadeira história do Paraíso', com Etgar Keret e Juan Villoro

Os autores Etgar Keret e Juan Villoro Fonte: oglobo.globo.com

O nome dessa mesa vem de um texto do Millôr Fernandes, autor homenageado nesta edição da FLIP, um texto que foi censurado e resultou na sua saída na época da revista "O Cruzeiro".  A mesa trouxe os autores Etgar Keret, de Israel, e o mexicano Juan Villoro.  Na conversa, uma visão sobre o paraíso em contraste ao horror da guerra - os paraísos que decepcionam. Face às questões complicadas do México e de Israel, qual o papel da literatura nestes lugares? Os autores consideram que a literatura mantém o humor nesse momento de tristeza. Ela traz também um sentido e uma reflexão em contextos de violência e falta de esperança.

No livro de Juan Villoro “Arrecife” ele explora os fascínios dos estrangeiros pelo turismo exótico e por tudo que os aproxima do perigo.  Menciona as visitas turísticas à fronteira do México com os EUA – um lugar de muito perigo que exerce um fascínio sobre as pessoas. Já o Israelense Edgar Keret diz que o humor da literatura serve como uma forma de protesto e é uma maneira de manter a sua dignidade numa realidade de violência. Para ele, a literatura é o único lugar onde tudo é possível – não há regras.  Essa atitude se torna clara em seus contos surrealistas de “De repente uma batida na porta”, que conta com situações absurdas que lembram a ironia de Woody Allen e o aprisionamento de Kafka.

Mesa 17 | 'Ouvir Estrelas' com Marcelo Gleiser e Paulo Varela.

Marcelo Gleiser de pé e Paulo Varela a direita Fonte: revistadacultura.com.br

Essa mesa leva o seu nome de um soneto de Olavo Bilac:

Ouvir Estrelas

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir o sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizes, quando não estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas". 

Olavo Bilac (Poesias, Via-Láctea, 1888)

A conversa sobre astronomia contou com a presença de Marcelo Gleiser, astrônomo e professor em Dartmouth nos EUA, e do geógrafo Paulo Varela.  Paulo discursou sobre a atual situação da astronomia no Brasil enquanto Gleiser elaborou sobre algumas das mais recentes descobertas no ramo da física quântica. 

A mesa contou com reflexões existencialistas sobre a condição e o papel do ser humano no universo e sobre o nosso conhecimento sobre o mesmo. Em seu novo livro, “A ilha do conhecimento”, Marcelo Gleiser compara o nosso conhecimento a uma ilha. Uma ilha que ganha terra e cresce a medida que adquirimos novos saberes porém está sempre cercada de um oceano do desconhecido.  Novos instrumentos tais como o microscópio possibilitam novas descobertas mas jamais conseguiremos cobrir todo o oceano de desconhecimento.  Nossa visão da realidade será sempre míope – com novas descobertas, surgem novas perguntas. Utilizando a metáfora de Platão, Gleiser diz que vivemos perpetuamente numa caverna do conhecimento. 

Ao ser questionado sobre a possibilidade de vida em outros planetas, Gleiser ressalta que é preciso discernir ‘que tipo de vida’ estamos falando. Vida simples certamente existe (micro organismos, etc.) mas a vida complexa, tal como a do ser humano, é algo extremamente raro.  Além de raro, se de fato existir outra forma de vida inteligente, até mesmo dentro da nossa galáxia, as distâncias que nos separam são tão gigantescas que seriam necessários milhares de anos até que ocorresse um possível encontro. Em outras palavras, o ser humano pode não ser a única espécie inteligente existente, mas nós estamos sozinhos e isolados dentro do nosso sistema solar.  Nós, seres humanos, somos raridades e isso nos dá uma imensa responsabilidade de preservação de vida e de estudo sobre o universo.

-----

Com isso, encerro meu relato sobre a FLIP 2014. Um evento com mesas interessantes que, apesar de não serem muito longas, chegam a se aprofundar nos seus temas e nos trazem visões diferentes sobre variados assuntos. Já estou ansiosa pela edição de 2015. 

FLIP 2014 (Parte 1) | Feira literária internacional de Paraty

Post especial sobre a Feira Literária Internacional de Paraty, a FLIP, realizada anualmente na cidade durante uma semana nos meses de Junho ou Julho.  No texto, alguns dos melhores momentos das mesas que tive a oportunidade de assistir.

Tenda dos Autores da FLIP 2014

Mesa 2 | 'Os Possessos', com Elif Batuman e Vladimir Sórokin, com mediação de Bruno Gomide

Foto com Elif Batuman e Vladimir Sórokin. Foto: Walter Craveiro. Fonte: fotospublicas.com

A primeira mesa trouxe uma discussão sobre a literatura russa entre Vladimir Sórokin, um dos maiores autores russos da atualidade, e Elif Batuman, norte americana de origem Turca que estudou literatura russa em Harvard e Stanford e hoje dá aula na mesma.  Entre anedotas e opiniões próprias, ambos falaram sobre a obra de Dostoiévski, sobre a produção literária no período soviético e sobre o caráter cômico e trágico da literatura russa – repleta de humor e tristeza ao mesmo tempo. Sórokin diz que a vida na Rússia é difícil e as duas coisas que os ajudam a superar são: o bom humor e a vodka. 

Sobre o ato da escrita, ambos refletem sobre a relação do autor com o contexto em que vive.  Sórokin considera que o autor que não vive o seu contexto, aquele que se fecha em seu próprio mundo e só escreve, torna-se um monumento a si mesmo.  Considera válida a colocação de um filósofo que dizia que um escritor morre a partir do momento em que desenvolve um estilo próprio.  Me pergunto até que ponto essa colocação não é válida para as outras artes, até mesmo para a arquitetura. 

Para concluir, ao serem feitas perguntas relacionadas à política, sobretudo em relação à atual crise com a Ucrânia, Sórokin encerra elegantemente a conversa com a seguinte colocação: “Putin vem e vai. O romance fica”.

Mesa 3 | 'Fabulação e Mistério' com Eleanor Cotton e Joel Dicker, com mediação de José Luiz Passos

Mesa 3: Eleanor Cotton e Joel Dicker. Foto: Walter Craveiro. Fonte: fotospublicas.com

Eleanor Cotton e Joel Dicker são autores extremamente jovens e que em pouco tempo já obtiveram reconhecimento internacional. Eleanor foi a mais jovem autora a ganhar o ‘Man Booker Prize’ com o seu livro “Os Luminares” enquanto Joel Dicker ganhou 2 grandes prêmios na França pelo seu suspense “A verdade sobre o caso Harry Quebert”.  Entre os temas abordados na conversa, os autores falaram sobre a importância do leitor para o livro – o autor faz 50% do trabalho através da escrita mas depende fundamentalmente do olhar do leitor.  Por isso, Joel Dicker diz que gosta de trabalhar com clichês pois acredita que isso estimula o 50% de retorno / participação de seus leitores.

Em uma reflexão interessante sobre passados e realidade, os autores falaram ainda sobre a temporalidade dos romances e a dificuldade de escrever no passado. Enquanto o livro de Cotton se situa na idade média na Nova Zelândia, o livro de Joel Dicker se passa nos anos 80.  De certa forma, a liberdade de Joel torna-se ainda mais restrita devido à proximidade da data.  Fatos mais próximos são mais memoráveis e qualquer equívoco ou imprecisão sobressai.  Um passado distante, no entanto, deixa muitas manchas de desconhecido, o que dá ao autor uma maior margem para a imaginação.

Mesa 4 | 'Paraty, a Veneza do Atlântico Sul'. Uma conversa entre Paulo Mendes da Rocha e Francesco Dal Co, com mediação de Guilherme Wisnik

Esta era a mesa que eu mais aguardava.  Tratava-se de um encontro entre um dos maiores arquitetos brasileiros, o ganhador do premio Pritzker em 2006 – Paulo Mendes da Rocha – e o crítico Italiano e editor da revista Casabella – Francesco Dal Co.

Foto: paulo mendes da rocha e francisco dal co. fonte: noticias.bol.uol.com.br

Paulo iniciou a conversa falando sobre o processo de formação de cidade; como essas são consequência do desejo humano - um desejo sempre insatisfeito.  Este desejo de conquista exige uma intervenção contínua sobre a natureza. Para que esta se torne habitável, ela deve ser adaptada às necessidades humanas.  Neste contexto de domínio e imposição sobre a natureza, Paraty e Veneza surgem como duas cidades improváveis.  

Francesco Dal Co, que mora em Veneza, inicia a sua participação na conversa com uma frase do autor italiano Petrarca :“Venezia è l’impossibile nato sulla impossibilitá” (Tradução: Veneza é o impossível que nasce da impossibilidade). Situadas próximas da água, ambas as cidades são invadidas pela mesma.  As ruas de Paraty são tomadas pelas águas quando a maré sobe e Veneza é largamente conhecida pelos seus canais labirínticos.  Ambas as cidades nasceram e se fortaleceram por sua forte relação com a navegação. Veneza era um ponto importante de trocas comerciais entre o ocidente e o oriente até o final do século 15. Já Paraty oferecia uma baía de águas calmas onde os navios podiam atracar para levar o ouro obtido em Minas Gerais, durante o ciclo do ouro no Brasil no século 18.

Tanto Veneza quanto Paraty perderam nos últimos séculos seus papeis originais de ponto de escambo e pólo da navegação embora permaneçam como joias do patrimônio mundial.  No caso de Veneza, sua reputação é tão gigantesca que a cidade recebe anualmente 23 milhões de habitantes. Dal Co questiona esse movimento de turismo em massa, expondo um conflito da cidade entre a sua preservação e os efeitos nocivos desse movimento efêmero e constante, que descaracteriza a forma a cidade.

Nessa conversa sobre conflitos, Mendes da Rocha e Dal Co afirmam que a cidade, de modo geral, é o âmbito dos conflitos.  Todas as cidades são feitas de conflitos e é preciso aprender a conviver com eles. Para Dal Co, a própria arquitetura é resultante de conflitos – o Museu da Escultura Brasileira em São Paulo, um projeto de Paulo Mendes, por exemplo, traz um belíssimo conflito entre a estrutura e a força da gravidade. Ambas as cidades espelham esse conflito em sua relação com a natureza.  Apesar de se assentarem sobre solos moles e apesar da invasão da água – em Veneza, por exemplo, estão sendo executados grandes projetos de contenção para a preservação da cidade – as duas cidades permanecem.  De acordo com Paulo Mendes, a natureza é uma beleza a ser contemplada através do emolduramento da janela, e segue como um desafio a ser confrontado constantemente na formação de uma cidade.  

Esculturas monumentais na Praça Paris | Rio de Janeiro

Foi inaugurada no dia 24 de Maio a “Mostra Rio de Esculturas Monumentais” na Praça Paris, no Rio de Janeiro.  A exposição conta com obras de 17 artistas brasileiros.  Além da beleza do desenho paisagístico da praça, fortemente influenciado pela escola francesa, me encanta a vista do entorno - os bairros da Glória e do Centro. Nesse contexto, as esculturas dialogam simultaneamente com duas escalas diferentes – a escala da praça e a das grandes construções à distância. A seguir, algumas fotografias da mostra.

A mostra permanece até o dia 20 de Julho. Eu particularmente recomendo uma visita ao entardecer, para observar a transição das obras iluminadas pela luz do dia e pela iluminação artificial.

Jorge dos Anjos(Minas Gerais) – Composição Geométrica

Claudia Dowek (Rio de Janeiro) – Amanacy (título significa "Mãe da chuva" em Tupi Guarani

José Petrônio (Alagoas) – Homens Grandes do Sertão

Claudio Aun(Rio de Janeiro) - Entrelaçamento quântico

Marcelo Caldas(rio de Janeiro) – Anforas

Gabriel Fonseca (Rio de Janeiro) – Cubo

Carlos Muniz (Minas Gerais) – sem título

Ernesto Neto na Estação Leopoldina | Rio de Janeiro

“ObichoSusPensoNaPaisaGen”

Entre Setembro e Outubro de 2012, a Nike organizou no Rio de Janeiro a exposição “Nike Flyknit Collective”, na qual a obra do artista carioca Ernesto Neto, entitulada “ObichoSusPensoNaPaisaGen”, estava exposta na Estação Leopoldina.

Achei a mostra primorosa!! A começar pela escolha do local. Uma estação desativada, localizada na Rua Francisco Bicalho, no centro do Rio de Janeiro. A estação, inaugurada em 1897, foi fechada para passageiros em 2004 e permaneceu em estado de abandono desde então embora sirva como eventual sede para eventos pontuais tais como festivais, shows, festas e feiras. 

interior da estação leopoldina

Nosso percurso não ficou apenas em torno da obra de Ernesto Neto - saímos primeiro para explorar e conhecer melhor o recinto. Percorremos o grande salão da estação e fomos ver as plataformas. Fiquei surpresa ao me deparar com trens modernos estacionados aqui, abertos também a visitação. Alguns desses, alvo de intervenções artísticas, como o grafite dos Gêmeos.

Trens desenhados pela dupla de grafiteiros paulistas, os gêmeos (2011).

Encontramos aqui também um maquinário completamente degradado, cujo corpo já apresenta plantas crescendo em sua lateral. Apesar de ser uma cena intrigante - ver uma maquina idealizada pelo homem completamente dominada pela natureza - dá uma pena ver o estado de abandono destes equipamentos e pensar que esta grande estação está fora de funcionamento numa cidade cuja rede de transporte público não atende adequadamente as demandas da população.

A obra de Ernesto Neto, um sistema de túneis suspensos feito a partir de cordas coloridas de polipropileno trançadas em crochê. Um labirinto de 40m de extensão, pendurado na estrutura metálica da estação, convida os visitantes a subirem e andarem sobre os caminhos.  Com isso, parece que voltamos a infância. Tiramos os sapatos e andamos descalços, sentido a matéria sob os nossos pés. É difícil manter o equilíbrio, e com isso avançamos nos segurando nas paredes de corda ao caminhar. Nos enlaçamos em suas amarras em busca de apoio, e nos equilibramos juntos. Entramos em sintonia com a estrutura e o contato com a obra torna-se ainda mais intenso.

Obra de ernesto neto pendurada na estrutura metálica da estação

O acesso a obra

Apesar de ser uma obra essencialmente horizontal, ocupando todo o espaço sem tocar no chão, há também um elemento vertical. As amarras que sustentam o sistema são contrapostas por pedras penduradas sob os caminhos, que por sua vez estabilizam o conjunto.

O colorido das cordas enfatiza o aspecto lúdico do conjunto

pedras penduradas sob os caminhos garantem estabilidade ao conjunto

Uma obra democrática - Ela abrange pessoas de todas as idades. As crianças veem a obra como um brinquedo a ser escalado enquanto os adultos são tomados por um deslumbramento. O simples fato de poder entrar em uma obra de arte, poder pisar e pegar nela, de maneira tão livre, contradiz a nossa velha percepção de que a obra de arte é algo intocável, a ser admirado a distância.

Yayoi Kusama no CCBB | Rio de Janeiro

“Desejei prever e avaliar a infinitude de nosso vasto universo com a acumulação de unidades de rede, uma negativa de pontos. Quão profundo é o mistério do infinito sem fim em todo o cosmos. Enquanto apreendo isso tudo, quero enxergar a minha própria vida. Minha vida, um ponto, ou seja, uma em meio a milhões de partículas. Foi em 1959 que me manifestei sobre [minha arte] obliterar a mim e aos outros com o vazio de uma rede tecida com uma acumulação astronômica de pontos.”

Yayoi Kusama

A mostra itinerante, trazida ao Brasil pelo Instituto Tomie Ohtake, entitulada “Yayoi Kusama: Obsessão Infinita”, inaugurada no dia 12 de Outubro, reúne obras da artista Japonesa Yayoi Kusama.  As obras selecionadas para a mostra variam desde pinturas a performances e acompanham o trabalho da artista desde 1950 até a atualidade.

retrato da artista - yayoi kusama

Nascida na cidade de Matsumoto em 1928, no interior do Japão, a artista começou a pintar ainda jovem, influenciada pela pintura tradicional japonesa - Nihonga. Mudou-se para Nova Iorque em 1958, onde entrou em contato com a obra de Joan Miró e Max Ernst, que vieram a se tornar grandes influências para o seu trabalho. 

Desde pequena a artista sofre de uma doença que a leva a ter alucinações, transtornos de despersonalização e depressão. Dentre algumas de suas alucinações, a artista relata ver as figuras de suas pinturas transcenderem as molduras que as encerram, cobrindo então as paredes do ambiente. Seus característicos pontinhos, recorrentes em sua produção, nada mais são do que representações dessas explosões visuais.

“a polka-dot has the form of the sun, which is a symbol of the energy of the whole world and our living life, and also the form of the moon, which is calm. Round, soft, colorful, senseless and unknowing. Polka-dots become movement... Polka dots are a way to infinity”.

[Tradução] O pontinho tem a forma do sol, que é um símbolo de energia do mundo inteiro e da nossa vida, também é a forma da lua, que é calma. Redonda, macia, sem sentido e sem consciência. Os pontinhos se tornam movimento...os pontinhos são o caminho para a eternidade.
— Yayoi Kusama

Abaixo, vemos a sua obra "Sala dos Espelhos do Infinito", na qual uma série de espelhos colocados frente a frente ampliam a nossa sensação de espaço, gerando um labirinto de luz. Não conseguimos distinguir um limite físico e, com isso, os pontinhos iluminados coloridos parecem se multiplicar infinitamente.

Sala dos espelhos do infinito - 2011

“Obsessão Sexual” e “Obsessão Alimentar”

A ‘Obsessão’ do título da exposição se refere a um trabalho compulsivo sobre dois temas em especial. Dois assuntos que, aos olhos da artista, estão intimamente associados à patologia e distúrbios. Esses temas são comidas e sexo. A penetração, em ambos os contextos, chega a ser algo doentio, uma fobia para a artista. 

A fotografia abaixo foi tirada dentro da obra "Sala de Espelhos do infinito - Campo de Falos (ou entretenimento)". Somos encerrados em uma sala cujas paredes são cobertas de espelhos, ampliando o espaço infinitamente, e o piso é coberto por formas fálicas revestidas pelos emblemáticos pontinhos da artista. O fato de ser uma sala fechada e não uma passagem, como na obra anterior, aumenta uma sensação de claustrofobia. Aqui, sua obsessão é levada ao extremo.

Sala de espelhos do infinito - Campo de falos

 O que impressiona é a escala. Na obra "Estou aqui, mas nada", entramos numa sala e nos vemos completamente rodeados por pontinhos, somos engolidos pelo universo distorcido de Yayoi. Nesse momento, percebemos como que deve ser ver o mundo através dos seus olhos.

Estou aqui mas nada - 2000/2013

 Seguem abaixo algumas imagens da belíssima ocupação da rotunda do CCBB, em torno da qual a exposição está organizada. As bolas flutuantes enaltecem a planta circular da rotunda, e apesar da grande dimensão das mesmas, elas transmitem uma sensação de leveza. Mesmo os passantes, que não estão lá para visitar a exposição, tem uma prévia do impactante trabalho da artista japonesa.

A mostra permanece em exposição até o dia 20 de Janeiro, de 2014, no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro (CCBB-RJ).

Monumenta 2011, Anish Kapoor au Grand Palais

Para o Monumenta 2011, o Grand Palais convidou o artista indiano Anish Kapoor para realizar uma intervenção em seu espaço.

A obra nada mais é do que um gigantesco balão inflado, cujas costuras atribuem-lhe uma forma particular que se adapta ao vazio do palácio. Trata-se de uma obra bastante sensorial.  A impressão que temos é de estarmos voltando ao útero.  Somos abraçados por este imenso vazio vermelho, quente e tranquilizante. O tom avermelhado – ao qual foi designado o termo ‘le rouge kapoor’ - remete à alma feminina, pois na Índia, o vermelho representa a mulher.  Além disso, lá o vermelho é também a cor da meditação. Ela transmite uma serenidade e um sentido de sabedoria, gerando um sentimento de introspecção entre os visitantes.

A luz entra de forma difusa, filtrada pela película de PVC, trazendo o desenho da estrutura do Grand Palais para dentro do balão. A variação do sol transforma gradualmente o objeto ao longo do dia.  Uma obra se adapta a luz.

A ESCALA - O SUBLIME

Num segundo momento, após a experiência do interior, saímos então para contornar a escultura.  Nessa hora, deparamo-nos com a sua totalidade e adquirimos noção de sua verdadeira escala. 

a escultura de kapoor vista de fora

a escultura de kapoor vista de fora

Esse descobrimento arrebatador gera no espectador a experiência do sublime.  O reconhecimento de sua pequinez diante desse ser gigantesco a sua frente.

Aqui, percebemos também que o objeto não toca em nada a não ser o chão.  Ele não está preso à estrutura do Grand Palais, como poderiamos supor quando ainda estamos em seu interior.  Ele está simplesmente solto, praticamente pairando no espaço. Incontrolável, como uma criatura adormecida, capaz de se levantar a qualquer momento.