Documenta e Skulptur Projekte 2017

2017 será um ano importante e atípico no mundo das artes. Isso porque quatro grandes eventos internacionais de arte acontecem ao mesmo tempo: a Bienal de Veneza, na Itália, Art Basel na Suiça, o Skulptur Projekte Münster (SPM) e o Documenta, em Kassel, ambos na Alemanha.

Diferente da maior parte das feiras de arte, que acontecem com uma frequência anual ou mesmo bienal, as edições do Documenta e do Skulptur Projekte Münster são mais espaçadas – o Documenta ocorre uma vez a cada cinco anos, enquanto o SPM acontece uma vez por década. Essa diferença em temporalidade confere a essas mostras um clima particular.  Cabe ao diretor o desafio de estabelecer uma ponte com a edição anterior e refletir sobre todas as mudanças que aconteceram nesse período, entre uma mostra e outra. Cinco ou dez anos são períodos longos, o que possibilitam portanto uma reflexão mais aprofundada sobre como o mundo se transformou nesse meio tempo - uma reflexão e um distanciamento que uma mostra bienal não consegue ter.

Apresento a seguir um resumo sobre a história dessas mostras e o que tem chamado a atenção nestas edições de 2017.


Skulptur Projekte Münster

Essa quinta edição do SPM contará pela primeira vez com o envolvimento de uma segunda cidade – a cidade industrial de Marl, a 20 km de Münster.  A mostra dedicada a esculturas no espaço público, inclui nesse ano também exemplares de videoarte e performance, e teve curadoria do alemão Kasper König, fundador do evento em 1977.

Das mais de 30 obras espalhadas pelas cidades, a que mais tem chamado a atenção é a instalação “After Alife Ahead”, do francês Pierre Huyghe.  A instalação foi feita no interior de um ringue de patinação de gelo desativado, cuja estrutura já apresenta traços de degradação.

“After Alife Ahead”, do francês Pierre Huyghe. Fonte: https://news.artnet.com/exhibitions/skulpture-projekte-2017-highlights-988964

O chão foi recortado usando um algoritmo lógico, utilizado nos testes de QI.  O recorte da laje de concreto no piso abriu espaço para a criação de uma paisagem artificial, composta por terra e lama. Perante a escala da obra e a força da natureza, o homem se depara com a sua pequenez. Algo que relembra a sensação de deslumbramento e do sublime, já retratado na obra do alemão Casper David Friedrich.

"O Mar de Gelo" (1823–24), pintura de Caspar David Friedrich

"O Mar de Gelo" (1823–24), pintura de Caspar David Friedrich

Além da criação da paisagem, o artista trouxe vida para o espaço, colocando pavões a mostra numa caixa de vidro e colmeias nos pilares. Duas aberturas zenitais abrem e fecham de tempos em tempos, permitindo a entrada de luz e ar, e consequentemente alterando o ambiente interno. A energia e vitalidade do espaço são capturadas por sensores que transmitem essas informações para incubadoras que contem células de câncer, cujo crescimento é diretamente influenciado pela mudança da temperatura no ambiente.

Essa não é a primeira obra de arte a trabalhar com microorganismos. Em dezembro 2016, para a comissão Hyundai para o turbine hall no Tate Modern, em Londres, o artista Philippe Parreno propôs a mostra ANYWHEN, onde também monitorava o movimento de visitantes e sua influência sobre os microoorganismo no espaço. A taxa de reprodução desses microorganismos provocavam mudanças nas projeções.

Documenta 14

Nesta sua 14ª edição, o Documenta, que geralmente acontece em apenas uma cidade, também se dividiu em duas localidades: neste caso foi Atenas, na Grécia (de abril-julho) e Kassel (entre Junho e Setembro).

A escolha por se dividir em dois países está profundamente relacionada à crise econômica da Grécia e às duras sanções enfrentadas pelo país (muitas delas impostas pela própria Alemanha). A mostra vem com o objetivo de estreitar e refazer o laço entre esses dois países, através da arte e da cultura.

Além disso, a Grécia foi uma das principais portas de entradas dos refugiados na Europa, desde o estopim da guerra na Síria. As obras nesta edição do documenta são em grande parte políticas, com ênfase na questão da imigração. 

Apesar desta edição estar particularmente politizada, é válido lembrar que a feira nasceu com um forte cunho político.  Sua primeira edição ocorreu em 1955, apenas 10 anos após o fim da segunda guerra.  Fundado pelo curador Arnold Bode, a feira originalmente foi parte do Bundesgartenschau (Federal Garden Show), tinha o objetivo de inserir a Alemanha no circuito de arte internacional e deixar a repressão do nazismo para trás. Suas primeiras edições contaram com obras apenas de artistas europeus e incluíram trabalhos de artistas que Hitler desaprovava, rompendo com o passado sombrio e caminhando para um novo momento. Aos poucos, o Documenta foi se abrindo para artistas de outros continentes. Participaram da primeira mostra artistas como Picasso e Kandinsky e, em edições mais recentes, artistas como Joseph Beuys e Gerhard Richter.

Entre as obras emblemáticas desta 14ª edição, está o Parthenon de Livros em Kassel, que faz alusão ao berço da cultura grego. A artista argentina Marta Minujín criou uma réplica do Parthenon, constituído por livros proibidos ou censurados ao longo da história – um símbolo da repressão política. A obra já tinha sido montada antes em Buenos Aires, em 1983, e foi novamente apresentada nessa edição da Documenta. O trabalho participativo contou com a doação de livros de diversas editoras.

Marta Minujín: El Partenón de libros, Buenos Aires, 1983. © Photo: Marta Minujín archive Fonte: http://u-in-u.com/fileadmin/_processed_/f/9/csm_Minujin-partenon-750-475_b8e47363f6.jpg

Apesar da influência do evento e engajamento político, surgiram várias críticas à documenta deste ano. Em artigo na sleek mag, a editora Jeni Fulton critica a falta de explicações, justificativa ou mesmo clareza nas sinalizações e nos rótulos dos trabalhos em exposição. Muitas delas sequer indicam o nome do artista ou título da obra. Essa falta de informação intencional por parte da curadoria demonstra, segundo ela, uma falta de respeito para com os visitantes e com os próprios artistas.

A escolha pela Grécia em um momento de ‘desencanto’ do ocidente – desencanto com a política, com a economia - é especialmente simbólico, visto que a Grécia é o berço da cultura, onde surgiu a democracia.  Como perguntou Ronaldo Lemos em artigo para a Folha, seria a arte a resposta para salvar o desencanto do ocidente?